REVIEW

Frostpunk review – A mão que afaga é a mesma que apedreja

  • Data de Lançamento: 24/04/2018
  • Data do Review: 24 de Abril, 2018
  • PC

Luz no fim do túnel.

por Daniel Starkey em 24 de abril, 2018

traduzido por Bruno Araujo em 24 de Abril, 2018

Amontoados dentro de uma cratera, eles se juntam em torno da sua última esperança contra o frio — um envelhecido gerador de vapor. Alimentado por carvão, o aparelho consegue fornecer o mínimo de calor necessário para dar ao último bastião da humanidade um traço de esperança.

São momentos como esse que ilustram a essência de Frostpunk, um game de construção de cidades com requintes de sobrevivência onde você deve liderar um solitário grupo de sobreviventes não contra invasões de exércitos, mas diante de uma tempestade gelada que arrasou a maior parte da raça humana.

Conforme a temperatura despenca bem abaixo do 0ºC, é seu trabalho guiar o que resta da população na criação de um assentamento bem-sucedido e auto-suficiente. Você vai precisar de caçadores e estufas, minas e serrarias. E vai precisar manter todas essas máquinas rodando em temperaturas que causam arrepios até no pinguim mais durão.

As partes essenciais do jogo são bem simples. Pessoas precisam de casas e trabalhos. E como essa é uma situação de sobrevivência, todos trabalham em um ritmo quase que permanente. O dia começa às 5h, e as pessoas têm poucas horas para concluir qualquer projeto de construção antes de seguir para seu trabalho principal por 12 horas. Depois disso, eles voltam para casa, terminam algumas tarefas menores e dormem.

Esse ciclo é bastante importante porque você precisa garantir que terá combustível suficiente para manter os geradores funcionando durante a noite. E grande parte disso é resolvido planejando quando e onde as pessoas precisam estar para completar suas tarefas. Conforme você sobrevive, você passa a construir em aneis concêntricos. Garantindo que, com o passar desse crescimento, o centro do seu acampamento continue atendendo as demandas de calor e esquentando os moradores o suficiente para que eles enfrentem os profundos calafrios.

Tudo isso funciona perfeitamente. Existe um padrão natural para tudo, e você receberá pequenos desafios ao longo do dia te ajudar a ganhar um pouco de estrutura. Geralmente, eles são consequências de decisões suas anteriores. Se você conseguiu manter seu povo vivo durante a noite, mas sem aquecimento suficiente, eles podem ficar doentes — impondo um novo conjunto de desafios para priorizar no dia seguinte.

Se qualquer elemento da cidade é negligenciado por muito tempo, você vai começar a receber demandas mais estridentes do povo, que por sua vez se transformam em objetivos mais complexos de dois, três dias. A estrutura pra tudo isso é elegante e precisa — você sempre terá trabalho o bastante, e nunca ficará sem objetivos a curto e médio prazo para ajudá-lo a ter foco.

Sua missão também é dificultada por todo tipo de desastres inevitáveis. De ondas de frio repentinas a amputações necessárias, de desastres de mineração a crises de refugiados: tudo exige a sua intervenção. Isso forma o que pode ser chamado de ponto crucial do game — o equilíbrio de esperança e descontentamento.

Decisões com compaixão trazem esperança para o seu povo. Elas relembram as massas amontoadas de pessoas que, no geral, nós não perdemos a humanidade. Atos draconianos ou frios, por outro lado, sugam a vontade coletiva. E ao contrário da maioria das decisões morais dos videogames, nenhum dos dois extremos é unilateralmente melhor.

Ações empáticas geralmente são melhores como objetivos de longo prazo para questões repentinas. Por exemplo, abrigar refugiados gravemente feridos ou com doenças terminais ajudam a manter o povo unido, lembrando-os que se eles forem abandonados ou se perderem, eles serão encontrados e ajudados.

Ao mesmo tempo, tratamento médico num cenário pós-apocalíptico é quase impossível. E se você não tiver as instalações para tratar seu povo, rapidinho vai observar uma pilha de corpos espalhando doenças por toda a colônia. Cure os machucados, no entanto, e você terá uma força de trabalho habilitada e imbuída do inquebrável espírito da esperança.

Esses são os tipos de decisões que permeiam Frostpunk e o separam de todos os outros jogos do tipo. E Frostpunk também ganha muita quilometragem por isso. É difícil se agarrar a uma moral muito elevada — mesmo se ela der certo — quando você é lembrado dos sacrifícios que cometeu ao longo do caminho. Isso dá um peso às suas decisões que SimCity e similares simplesmente não conseguem. Aqui, os efeitos dos desastres são tangíveis. E o jogo corretamente culpa você pelos seus fracassos pessoais.

Um dos moradores se aproxima de você: “As crianças devem ser colocadas para trabalhar. Estamos juntos nessa, e precisamos de ajuda agora mesmo”. Depois, lhe é entregue um desgastado livro de regras do seu bando. É ali que você pode, com apenas um clique, começar a colocar crianças para trabalhar. Ou você pode começar a construir abrigos infantis para abrigar essas crianças e mantê-las saudáveis e seguras do frio. Os cidadãos não falam com você sobre essa segunda opção — e por que eles fariam? Eles só conseguem ver o que está imediatamente à sua frente.

O próprio Frostpunk, em seu tutorial, nota que as pessoas a quem você serve estão sempre procurando uma solução, mas nunca a melhor delas necessariamente. O que é melhor no final das contas depende dos desafios que surgirem pela frente. Há uma doença misteriosa se espalhando incontrolavelmente pelo acampamento? Ou você está tendo dificuldade em encontrar carvão, forçando o uso de lenha e materiais de construção para manter o gerador funcionando?

Essas questões são constantes e agonizantes. E Frostpunk tem requintes de cinismo e frieza. E apesar disso tudo, é a vontade de não desistir nunca, essa necessidade fundamental do ser humano de persistir, a característica que Frostpunk mais busca. Você se transforma no baluarte contra o medo — mesmo quando você olha para o acampamento e reflete em quão difícil será essa luta.

Isso é poderoso precisamente porque machuca. Toda vez que você toma uma decisão difícil, pinta a dúvida. Se você fosse melhor, se você tivesse decidido melhor, talvez teria conseguido salvar todo mundo. E pra piorar a situação, a barra de esperança de Frostpunk mostra as consequências das suas decisões assim que elas acontecem. Envie crianças para as minas e você vai assistir ao vivaço a fé do acampamento despencar.

Esse sistema de equilibrar a vontade das pessoas contra as suas próprias necessidades funciona tão bem justamente porque cada mecanismo do jogo é construído para apoiar essa ideia central. Gerenciar a força emocional dos moradores é tão importante quanto todo o resto do trabalho.

Quando for a hora, você também poderá formar patrulhas de batedores, postos de observação, e construir uma rede de assentamentos improvisados que se mantém unidos. Mas de novo, essa parte da brincadeira se confunde com inúmeras decisões brutais. Será que é melhor enviar batedores para ajudar sobreviventes a enfrentarem os ursos? Que tal desligar uma super-arma elétrica que frita tudo que encosta — mas com o potencial de encontrar um novo Porto Seguro no mundo? A história da sua civilização, dos anseios das massas, é forjada pelas escolhas que você tomar ao longo do caminho. E elas se tornam parte da narrativa que você constrói.

Frostpunk está entre os melhores games de sobrevivência e construção de cidade. Sua temática e consistência criam uma narrativa poderosa que amarra todas as suas ações no esforço de se apegar à humanidade em tempos incertos. Esperança é um bem qualificado, mas nem sempre você estará forte suficiente (ou atento suficiente) para proteger a chama do frio.

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Frostpunk / PC

Pontos Positivos
Condições agonizantes fazem o gerenciamento do seu acampamento depender de decisões horríveis
Escolhas estéticas fenomenais reforçam temas centrais do jogo
O equilíbrio efetivo entre objetivos de curto e longo prazo oferecem desafios constantes
Pontos Negativos
Não há
9
Muito Bom
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Frostpunk

  • Data de Lançamento: 24 de Abril, 2018
    • PC
    Desenvolvedora:
    11 bit Studios
    Publisher:
    11 bit Studios
    Gênero(s):
    Sobrevivência, Estratégia, Construção de cidades
    18 anos
    Violência, Conteúdo Sexual, Linguagem Imprópria