REVIEW

Spider-Man review — De volta ao lar

  • Data de Lançamento: 07/09/2018
  • Data do Review: 4 de setembro, 2018
  • PlayStation 4

É a experiência mais completa, mesmo que tradicional, do super-herói nos games.

por Gabriel Oliveira em 4 de setembro, 2018

Jogar o Spider-Man de PlayStation 4 é como revisitar algumas das principais histórias de um dos mais icônicos super-heróis da Marvel, mas com uma série de liberdades criativas que fazem muito bem ao título da Insomniac Games.

A mensagem clara para os jogadores é que o gameplay, extremamente dinâmico, intuitivo e veloz, e a história, que mostra muito de Peter Parker fora do manto do cabeça de teia, são os pontos altos do jogo. De negativo, ficam as missões secundárias que acrescentam pouco à aventura e quebram o ritmo da jornada.

Na pele de um Peter Parker ainda jovem (o herói tem 23 anos no game), mas já experiente no combate ao crime em Nova York, você vai precisar lidar com o caos que se instala na cidade após o amigão da vizinhança colocar o Rei do Crime atrás das grades (é, você não leu errado).

A prisão de Fisk abre espaço para ascensão de uma nova facção criminosa, os Demônios, cujas ações, arquitetadas pelo Senhor Negativo, são tão ou mais violentas do que as comandadas pelo Rei do Crime – que mesmo enfraquecido ainda consegue manter parte de sua influência de dentro da cadeia.

Diante disso, não é difícil imaginar o quanto o cabeça de teia vai precisar se desdobrar para conciliar a vida de herói com seus compromissos pessoais.

Vale citar que Martin Li, identidade real do Senhor Negativo, está em uma jornada de vingança. Muitas de suas ações desconstroem a imagem tradicional de supervilão megalomaníaco. E apesar de ser capaz de atitudes extremamente cruéis ao longo da campanha do jogo, essa construção de personagem também confere a Li uma dimensão mais humana. Você vai ver que essa vertente é recorrente em Spider-Man.

Show do aranha

Após uma breve apresentação de Peter Parker, o jogador já assume o controle do Homem-Aranha e se sente em casa com a excelente movimentação do herói. A resposta aos controles é precisa e não leva muito tempo para entender os padrões de comandos e dominar o básico das mecânicas de salto e disparos de teia.

Viajar por Nova York no controle do cabeça de teia é particularmente prazeroso. E a liberdade para se mover com agilidade e curtir os belos visuais da cidade é um dos pontos altos da jornada – experimente ver Nova York do alto de um prédio, especialmente nos fins de tarde.

Essa movimentação extremamente dinâmica, vale citar, lembra muito Sunset Overdrive, trabalho anterior da Insomniac Games para Xbox One.

Os primeiros minutos de história, nos quais você enfrenta justamente os capangas de Fisk, também deixam claro que não basta sair apertando botões aleatoriamente para derrotar a horda de adversários que surge na tela. Como os bandidos têm diferentes características, de brutamontes imunes a combos aéreos a indivíduos armados com pistolas, bazucas, metralhadoras e até mesmo escudos, é fundamental controlar a multidão de inimigos ao seu redor.

Em resumo: focar em lutar contra um só adversário, especialmente quando há muitos inimigos na tela, normalmente não é a melhor opção.

Enquanto você concentra seus esforços golpeando um criminoso, outro pode te atacar por trás ou disparar uma rajada de tiros que causa bastante dano, principalmente quando o aranha ainda está em níveis mais baixos. Justamente por isso, é preciso se concentrar bastante no ambiente e muitas vezes deixar um bandido apenas desnorteado ou temporariamente imobilizado para golpear outros que estão prestes a te acertar.

O jogo pune esse tipo de desatenção a todo momento e o uso do botão de esquiva é fundamental para sua sobrevivência. As teias de impacto, que imobilizam temporariamente os inimigos, também são imprescindíveis para esse controle do ambiente. Como elas levam algum tempo até recarregarem, precisam ser usadas com sabedoria.

Já na hora de enfrentar que usam escudos, por exemplo, ataques frontais e o disparo de teias de impacto são inúteis. Neste caso, é preciso disparar uma linha de teia em direção aos escudos, deslizar por baixo dos inimigos e golpeá-los por trás. Outra opção bastante útil é girar e arremessar objetos sobre os inimigos.

E a comparação com Batman?

Como ficou claro em alguns vídeos de gameplay e até em entrevistas de desenvolvedores, o sistema de combate de Spider-Man lembra o da série Batman: Arkham. Mas a comparação perde força por dois motivos, principalmente.

A diferença mais evidente está na maior liberdade de movimentação e na agilidade do Homem-Aranha. Pela própria natureza dos poderes do herói, fugir de um combate em momentos críticos é uma tarefa mais fácil de se fazer com o cabeça de teia do que com o cavaleiro das trevas.

Mas também há o caso dos abates furtivos. Com o Aranha, é inviável limpar um ambiente inteiro de inimigos na discrição, algo plenamente possível com o Batman. No entanto, quando se está num local com atiradores posicionados em locais altos, abatê-los silenciosamente é fundamental para não chamar a atenção de outros capangas.

O ponto mais fraco dos combates de Spider-Man, por sua vez, é o que coloca um abismo entre ele e Batman: Arkham. Enquanto o homem-morcego dos games se acostumou a enfrentar seus maiores adversários em batalhas criativas e repletas de mecânicas únicas, as lutas contra os vilões do Homem-Aranha são, ao contrário de todo o restante do jogo, excessivamente roteirizadas.

Especialmente contra inimigos que disparam rajadas de energia, é preciso desviar de seus ataques continuamente, esperar eles abrirem uma brecha e então golpeá-los, coisa que se repete algumas vezes por confronto. Em certos momentos, para deixar tudo ainda mais previsível, também é preciso cumprir alguns quick time events. As sequências de ação são bastante cinematográficas, ao menos.

Evolua com sabedoria

Como deu para ver em trailers e propagandas, Peter Parker tem à sua disposição várias roupas diferentes, cada qual com uma habilidade específica. A primeira é o Foco, que permite ao cabeça de teia recuperar sua vida, ganhar um bônus temporário em seus atributos e fazer combos especiais apertando os botões Triângulo e Círculo.

Já o traje do filme Homem-Aranha: De volta ao lar, por exemplo, traz o Spider-Parça (melhor nome), uma espécie de drone que auxilia o herói em combate. Outros uniformes ativam outras habilidades, como golpes elétricos, que deixam os inimigos temporariamente paralisados, e maior resistência a tiros.

Isso somado a um sistema de árvore de habilidades, adquiridas conforme você ganha pontos de experiência, faz de Spider-Man um jogo com toques bem dignos de RPGs – tanto na personalização do combate como do visual também. Apesar de cada traje ter uma habilidade nova, uma vez liberadas, elas podem ser usadas com qualquer aparência.

Ou seja, é possível jogar com o look do Spider-Man Noir sem abdicar do Foco (uma das melhores skills até o final). Essa enorme variedade de habilidades e roupas é o sonho dos fãs Homem-Aranha, independente da fase nos quadrinhos, e um capricho que merece destaque.

E fica a dica de habilidades importantes para desbloquear o mais rápido possível: uma que permite ao Homem-Aranha puxar armas e escudos dos inimigos; e outra que diminui o dano que você recebe quando é atingido por tiros.

Mas com grandes poderes vêm grandes responsabilidades, não é mesmo? Pena que nem sempre elas sejam tão interessantes.

Explorar Nova York nem sempre é tão divertido

Em se tratando de jogos de mundo aberto, a liberdade para deixar os objetivos principais de lado e embarcar em missões paralelas costuma ser um dos pontos mais legais da jornada. Não é tanto o caso de Spider-Man.

Há três caminhos para liberar mais uniformes e habilidades no jogo. Com fichas de crime, obtidas ao impedir assaltos a lojas, sequestros e roubos de carro. Fichas de monumento, coletadas ao tirar fotos de prédios e outras construções históricas de Nova York. E fichas de mochila, que reúnem itens relacionados a lembranças do cabeça de teia como protetor da cidade.

Evitar crimes e salvar cidadãos de situações de perigo é bastante divertido, mas não se pode dizer o mesmo das demais atividades. O sentido-aranha, ativado com o botão R3, até indica a localização de monumentos e pontos com mochilas escondidas. E mesmo assim fazer isso repetidas vezes acaba com o ritmo do jogo.

O jogador tem a possibilidade de abrir mão desses objetivos e seguir em frente, mas a decisão acaba respingando no desbloqueio de novos trajes, habilidades e melhorias. No fim, é preciso coletar pelo menos parte dessas fichas para ter um Homem-Aranha mais versátil em combate.

No entanto, nada é tão entediante quanto as missões em que o cabeça de teia investiga as ações poluentes das indústrias Oscorp. O negócio é basicamente assim: em meio a todo o caos que Nova York enfrenta, com inimigos do Homem-Aranha atacando a cidade e facções criminosas em guerra, o amigão da vizinhança ainda precisa coletar amostras para “um personagem aí” fazer pesquisas e análises.

E se você tem ranço de algumas obsessões dos jogos de mundo aberto da Ubisoft, sim, existe algo parecido em Spider-Man. A ocorrência de crimes pela cidade é monitorada com a ajuda de torres de vigilância espalhadas pelo mapa. Subir e ativar o sinal de todas elas não é uma atividade exatamente estimulante. Pelo menos é fácil identificá-las no mapa e rápido escalar até o topo – são os benefícios de ser um super-herói ágil e naturalmente arteiro.

Peter Parker mais humano

Mas não é só de combate e exploração que vive Spider-Man. Alguns dos melhores momentos do game acontecem justamente quando deixamos o manto do Homem-Aranha e nos tornamos apenas Peter Parker.

Se a trilogia dirigida por Sam Raimi teve como ponto alto a exploração da dimensão mais humana e vulnerável de Peter, o jogo da Insomniac acerta ao mostrar o quanto é difícil para o jovem lidar com tantas responsabilidades ao mesmo tempo, ainda que com uma abordagem bem menos dramática.

Peter passa por problemas financeiros, participa de um importante projeto científico (no qual precisa resolver uma série de quebra-cabeças relacionados a consertos de circuitos eletrônicos) e tem uma relação conturbada com Mary Jane (não falaremos spoilers), que no jogo é uma repórter investigativa e obstinada – uma releitura muito bem-vinda da personagem.

A participação extremamente ativa de MJ na trama, aliás, é uma grata surpresa. Nos momentos em que é jogável, a jovem ruiva investiga acontecimentos com impacto direto na história, resolve sua dose de enigmas e ignora a preocupação excessiva de Peter… ao mesmo tempo que compartilha com o herói tudo que descobre. Sim, eles têm seus altos e baixos.

O ponto alto da parceria é uma missão em que as ações de Peter e MJ se intercalam. Na pele do Homem-Aranha, você deve derrotar um grupo de criminosos que mantém um grupo de reféns. Como a jornalista, precisa estudar e explorar o local, distrair parte da facção sem se revelar e ainda por cima assinalar quando o cabeça de teia pode capturar alguns dos bandidos sem que os demais percebam.

Peter também está sempre em contato com Tia May, visitando-a com frequência no trabalho comunitário de ajuda a moradores de rua. Nosso herói também tem uma relação particularmente tocante com um personagem que não apareceu nos trailers, mas cujo caráter idealista lembra muito o do próprio Peter. Justamente por isso, as alegrias e frustrações vivenciadas pela dupla acrescentam muito à história.

Miles Morales é o outro lado de Peter Parker

A Insomniac já falou um pouco sobre o papel de Miles Morales em Spider-Man. E embora seja difícil comentar o jovem sem dar spoilers (não faremos isso), é evidente que o garoto, um adolescente de 15 anos na trama, representa de certa forma o Peter Parker que não aparece no jogo.

Peter está constantemente lidando com os problemas da vida adulta, que vão bem além de enfrentar criminosos e supervilões. Enquanto Miles mostra muitas das características de Peter quando assumiu a identidade do super-herói.

Para Morales, o Homem-Aranha é um ídolo. E isso fica evidente na sua primeira aparição na história. O garoto tem seu lado nerd, também passa por uma perda importante e, a partir daí, precisa cruzar sua própria jornada de amadurecimento. Basicamente, se o jogo contasse a história de uma versão adolescente de Peter, ela provavelmente seria como Miles. Com a diferença de que ela não teria um super-herói para se inspirar.

Falar qualquer coisa a mais sobre Morales revelaria muito sobre sua história. No entanto, é possível dizer que o garoto não está lá apenas como um serviço aos fãs. Sua participação no jogo tem importância na trama e cresce gradativamente.

Um marco para o futuro

Quem é fã dos games do Homem-Aranha vai encontrar no novo Spider-Man uma versão em maior escala de tudo o que fez sucesso em títulos anteriores. Há mais liberdade de exploração, um sistema de combate mais ágil e versátil do que em qualquer outro jogo da série e uma história que valoriza os momentos de Peter fora da vida como super-herói.

As missões de exploração e os quebra-cabeças são adições bem-vindas à história principal, e mostram que nem sempre é preciso entuchar o jogador em momentos de ação intensa para prender a atenção do jogador.

Mas Spider-Man peca na construção de um mundo aberto vasto, rico e com atividades paralelas que mantenham o jogador engajado, e não entediado. Todo esse setor fica bem aquém de outros concorrentes de peso do gênero, como Assassin’s Creed Origins e o próprio Grand Theft Auto V, guardadas as devidas proporções.

Outro ponto negativo é o confronto com cada grande vilão do game. As batalhas são bem menos dinâmicas do que o restante da campanha, e seu caráter repetitivo destoa do restante, infelizmente, para baixo.

Ainda assim, Spider-Man oferece a experiência mais completa, mesmo que tradicional, do super-herói nos games. E tem tudo para agradar fãs novos e antigos.

Nosso teste aconteceu num PS4 Pro e, apesar da polêmica recente sobre poças d’águas, o jogo está muito bonito. Some a isso a participação importante de personagens secundários, a dimensão mais humana de heróis e vilões e você tem em Spider-Man um novo padrão de qualidade para futuras aventuras do cabeça de teia.

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Spider-Man / PlayStation 4

Pontos Positivos
Combates dinâmicos valorizam a habilidade do jogador.
História dá dimensão humana a Peter Parker e valoriza personagens secundários.
Liberdade de movimentação e controles rápidos tornam viagem por Nova York extremamente prazerosa.
Sistema de evolução de habilidades é fundamental em combates mais difíceis.
Pontos Negativos
Algumas missões secundárias são repetitivas e acrescentam pouco à trama principal.
Combates contra vilões tiram parte da liberdade vista no restante do gameplay.
8
Bom

Sobre o Autor

Gabriel Oliveira

Jornalista fã de JRPGs, quadrinhos, mangás e Harry Potter. Entrei no mundo dos games com um Super Nintendo e ainda espero, provavelmente em vão, por uma sequência da série Chrono.

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Spider-Man

  • Data de Lançamento: 7 de setembro, 2018
    • PlayStation 4
    Jogo de ação em mundo aberto com um dos super-heróis mais carismáticos da cultura pop, exclusivo para PS4.
    Desenvolvedora:
    Insomniac Games
    Publisher:
    Sony Interactive Entertainment
    Gênero(s):
    Ação, Aventura
    Pendente