REVIEW

Yakuza 6: The Song Of Life Review – Drift Em Tóquio

  • Data de Lançamento: 17/04/2018
  • Data do Review: 17 de Abril, 2018
  • PlayStation 4

Cinco homens e um bebê.

por Edmond Tran em 17 de abril, 2018

traduzido por Pedro Scapin em 17 de Abril, 2018

A franquia Yakuza já tem mais de uma década de vida, e, nesse tempo, seu cenário previsivelmente cresceu. Ao longo de seis jogos “canônicos”, áreas de “free-roam” se tornaram mais substanciais, protagonistas adicionais foram apresentados, mecânicas de combate foram expandidas para incorporar múltiplos estilos de luta, e mais e mais minigames foram sendo empilhados consistentemente. Surpreendentemente, o último lançamento vai na direção contrária, descartando elementos que certamente não vão passar despercebidos pelos fãs da série. Mas isso não acaba sendo uma coisa ruim, porque Yakuza 6: The Song of Life usa com sucesso sua pegada menor para criar uma impressão mais profunda e significativa.

O último capítulo da história de Kazuma Kiryu foca apenas nele, com uma trama fazendo pequenas menções a personagens importantes do elenco da série como Majima, Saejima, Daigo e as crianças do Orfanato Sunflower. Sua filha adotiva, Haruka, o simpático detetive Date, e o corretor que virou mendigo Akiyama têm papéis importantes, mas ficam à margem. The Song of Life é centralizado em Kiryu após seu retorno de um longo período na prisão, separado do Clã Tojo, e desvenda o mistério de uma criança que de repente ficou sob seus cuidados. Esse cenário ecoa distantemente os eventos do primeiro jogo, uma escolha aparentemente proposital que dá a Kiryu um senso de encerramento para seu arco.

Suas investigações o levam à cidade portuária de Onomichi, em Hiroshima, onde ele encontra uma família criminosa liderada por um velho, porém, supostamente lendário membro da Yakuza interpretado por Takeshi “Beat” Kitano. Enquanto o jogo, não surpreendentemente se desenrola em uma história complexa e dramática envolvendo alianças políticas ilegais, antigas conspirações, e uma dose saudável de mentiras, o que é mais memorável são as vertentes e desenvolvimento dos personagens que exploram o que se tornou um tema bem significativa e abrangente: família. O tempo que Kiryu passou conhecendo novas pessoas em diferentes momentos de sua vida em uma cidade pequena o fez refletir sobre ideias extraordinariamente ordinárias que existem em diferentes facetas da sociedade – ligações de amizades diante da adversidade, lealdade em tempos de incerteza, e agir como pai.

Esses temas ressoam consistentemente através de boa parte da narrativa de Yakuza 6, e isso inclui inúmeras sub-histórias opcionais. Você ajudará crianças e pais a resolverem conflitos e tentará entender o ponto de vista de cada lado. Você verá Kiryu encontrando força e lealdade nos menores dos gestos, juntamente com as diferentes maneiras com as quais amigos e estranhos podem se ajudar. O roteiro dessas histórias normalmente é brega, mas isso não significa que não há uma sinceridade cativante que regularmente brilha através delas. Quando um piano melodioso aparece em cenas importantes de resolução moral, é difícil não ser levado por tudo isso. A propensão por bobeiras da série ainda existe, apesar de não voltar aos níveis de absurdo de Yakuza 0. Sub-histórias particularmente memoráveis são algumas que exploram com humor a falta de intimidade e o desdém de Kiryu com relação à tecnologia moderna, como drones, robôs de aspiração de pó e até youtubers. Mas, até a sidequest mais cômica, que faz Kiryu se vestir do mascote adorável de Onomichi (que tem uma uma laranja no lugar da cabeça e um peixe como bolsa) acaba sendo uma reflexão tocante sobre ter lealdade ao orgulho pela cidade.

Essas histórias emotivas também são componentes chave dos novos minigames de Yakuza 6. Há menos dessas atividades do que em jogos anteriores, mas muito do que é incluído é mais robusto que o normal, e, em muitos casos, as sub-histórias atreladas a elas são prazerosas o suficiente para impedir que mecânicas simples se tornem cansativas rapidamente. Pesca com arpão é uma espécie de shooter que coloca Kiryu para ajudar um pescador machucado e um peixeiro órfão a rastrear um tubarão que arruinou suas vidas. A Liga de Beisebol de Onomichi envolve um leve gerenciamento do time, entrar em campo e até servir de olheiro de jogadores, mas a história de Kiryu levando um time de desacreditados é o que torna a situação ótima. O minigame do Snack Bar se destaca. Nele você deve tentar se tornar um freguês frequente em um pequeno bar local onde Kiryu tenta formar relações pessoais com um grupo de proletários relativamente comuns. Sua principal mecânica é participar de conversas em grupo onde um uma pessoa fala sobre seus problemas, e o papel de Kiryu é ajudar a fornecer diálogos solidários e evitar dizer algo egoísta ou estúpido. É adorável ver Kiryu resolver dilemas do cotidiano e fornecer uma amizade genuína.

Por outro lado, há o incrivelmente cativante Clan Creator Mode, que coloca Kiryu involuntariamente no meio de uma guerra entre jovens gangues (cujos líderes incluem lutadores reais de Pro Wrestling do Japão). Assumindo a liderança de um destes grupos, você ajudará Kiryu a sondar novos soldados, organizar a hierarquia, e participar de simples batalhas de rua. Você terá acesso a uma visão superior dos conflitos, onde você poderá despachar unidades autônomas assim como personagens com habilidades especiais. O Clan Creator é o minigame mais substancial de Yakuza 6, com funções online que permitem competições contra outros jogadores e missões diárias. Infelizmente, também é o mais tedioso de se jogar. Estratégias vitoriosas dependem totalmente de acumular o máximo de tropas possível e fazer missões para manter seus líderes com níveis altos. As batalhas não são desafiadoras até que muitas missões de sub-histórias já tenham sido feitas, e, ainda assim, a estratégia mais ou menos se mantém idêntica. Para um modo com um escopo tão ambicioso, suas mecânicas e trama relativamente sem inspiração não são satisfatórias o suficiente para tornar esta longa viagem prazerosa.

O Club Sega mais uma vez oferece clássicos jogáveis como Super Hang-On e Outrun, mas também há versões completas, com suporte multiplayer de Puyo Puyo, e Virtua Fighter 5: Final Showdown, ambas seleções de peso. Mahjong está de volta, uma academia oferece minigames de atletismo para ganhos acima da média de experiência, karaokê e um café que fornece distrações prazerosas, além de um minigame de dardos simples de dominar que possui uma sub-história que te deixa encarar uma lenda do esporte no mundo real.

Yakuza 6 também mantém a convenção da série de incluir interações mais excitantes. Os cabarés estão de volta, com seis anfitriãs para Kiryu conversar em minigames. Também destacável é o particularmente picante Live Chat, um minigame que faz com que você gaste dinheiro para assistir shows ao vivo pela web cam, enquanto aperta botões até que as modelos tirem suas roupas e gemam sugestivamente. A inequívoca objetificação das mulheres nesses minigames continuam a tornar sua inclusão desconfortável. A presença delas reflete verdadeiramente sobre partes proeminentes do Japão da vida real e das indústrias adultas, mas esses tipos de minigames sempre perpetuaram uma inconsistência inacreditável de caráter para Kiryu. Há um conflito entre a descrição canônica dele como um santo forte, estóico e honrado e uma versão que é um pervertido desajeitado e arrepiante. Após dez anos, ainda é difícil de acreditar que Kiryu é alguém tentando formar um harém tão grande quanto o orfanato do qual ele é dono, que grita loucamente “PEITOS” e “TÁ FICANDO DURO” quando uma mulher tira sua blusa. Essas atividades têm seus momentos, entretanto – alguns trechos do Live Chat podem ser bem engraçados, e dar em cima das anfitriãs significa que você pode ver vídeos de karaokê adicionais sensacionais. Mas, no âmbito geral de Yakuza 6, onde temas emocionantes tomam conta de todas as interações de Kiryu, esses minigames são distantes.

O icônico distrito da luz vermelha de Kamurocho ainda tem um grande papel na história, apesar de possuir uma área notavelmente menor desta vez. Você ainda vai se sentir em casa, como se já tivesse visitado a área antes, mas a falta de acesso ao Champion District e ao Park Boulevard é decepcionante. Entretanto, o distinto senso de uma cidade vibrante se mantém, e isso é ampliado pelo que parece como um mundo mais detalhado e denso. Andar no modo em primeira pessoa é suficiente para que você aprecie as complexidades e mudanças, e há um novo elemento de verticalidade com um aumento no número de acessos a terraços. Mas há grandes avanços na maneira com a qual a cidade te convida a interagir com ela.

Yakuza 6 agora te recompensa por interagir com o mundo de maneiras que jogos anteriores não faziam. Comer nos muitos restaurantes do game, o que anteriormente só valia a pena se você precisasse de um boost de vida, agora é a maneira mais conveniente de acumular pontos de experiência para gastar no extenso sistema de upgrade, apesar de você ser limitado por uma barra de capacidade de seu estômago. Comprar drinks e bebidas de uma das várias máquinas automáticas pelo mundo te dará buffs temporários de combate. Cada minigame também renderá experiência a você. O resultado disso é que tirar um tempo para ser absorvido pela atmosfera da cidade te beneficiará, e o mundo não mais apenas um caminho bonito por onde andar até seu próximo objetivo. Agora, você não precisa se sentir culpado por se distrair por horas com Mahjong.

Onomichi, em Hiroshima, é uma região maior que localidades adjacentes anteriores foram, apesar de que a sonolenta cidade portuária é muito mais quieta que Kamurocho. Situada à beira-mar, suas lojas são decoradas por arranjos de flores, um trem divide a área, e apertadas calçadas para pedestres sobem as colinas, levando a um templo impressionante com vistas espetaculares. É uma recriação charmosa e autêntica de partes mais tranquilas do Japão, o que é algo que tanto você quanto Kiryu aprenderão a apreciar. A atmosfera relaxada e seus personagens exemplificam os temas emotivos de The Song of Life.

É claro que, para manter essa tranquilidade, às vezes você precisa socar alguns bandidos no chão, e o sistema de combate atualizado segue sua filosofia de focar em menos. As disciplinas variáveis de luta introduzidas em Yakuza 0 se foram – O Kiryu de Yakuza 6 é equipado apenas uma versão expandida de seu estilo tradicional de briga, talvez outra homenagem ao início da série. Ele ainda mantém seu peso e rigidez característicos, mas há fatores adicionais que tornam o ato de lutar parecer mais fluido do que foi no passado, transformando combates em uma experiência bem mais dinâmica e empolgante.

Grupos de inimigos são maiores em The Song of Life, e controlá-los precisa de um pouco mais de foco por conta disso. Lutas importantes que fazem parte de momentos centrais na história regularmente colocam Kiryu e seus companheiros contra dúzias e mais dúzias de inimigos de uma só vez – uma proporção que é frequentemente divertida. Com isso, as propriedades dos ataques de Kiryu foram alteradas. Seu arremesso gira um inimigo antes de jogá-lo longe. Cada combo em progresso agora permite que ele execute dois golpes finalizadores por padrão, e o segundo tipicamente o lança à frente com um ataque de largo alcance. Começar um combo pesado com um posicionamento inteligente significa que Kiryu agora parece uma bola de demolição humana atravessando um grupo de agressores. Você consegue criar frequentemente efeitos dominó que jogam inimigos uns contra os outros, e, graças ao novo motor gráfico do game, contra objetos do cenário, como filas de bicicletas, janelas, e até lojas e restaurantes.

Essa é a mudança mais significativa no combate – ele agora se beneficia de transições imperceptíveis entre exploração do mundo e batalhas. Entrar numa luta de rua não significa mais ter que esperar por alguns segundos até que uma animação apareça na tela e alguns civis se agrupem para restringir sua movimentação a uma pequena área. As lutas agora têm o potencial de se mover pela cidade e para áreas como escadarias, terraços, lojas de conveniência, restaurantes e vários outros interiores de prédios. Isso também significa que você pode decidir se está ou não a fim de uma pancadaria. O dinamismo e o ritmo ininterrupto dá ao combate de Yakuza algo bacana, e significa que batalhas aleatórias são menos propensas a caírem na monotonia, como eram em jogos anteriores. Você pode estar andando tranquilo pela rua, tomando um café ou tirando uma selfie em frente a uma cafeteria, a gangues de bandidos podem subitamente te interromper, te forçando em direção a uma briga no meio de uma escadaria que eventualmente vai parar num terraço. Ou, você pode tentar correr e se esconder em uma loja de conveniência, e, sem sucesso, se ver no meio de uma completa destruição de prateleiras e salgadinhos voando até que você põe fim ao caos batendo cabeças em um microondas – mas não espere que o atendente vá lhe servir após tudo isso. O combate em Yakuza 6 é empolgante, e as situações nas quais você poderá se encontrar ecoam positivamente os tipos desorganizados e tensos de conflitos que existem nos filmes de gângster do leste asiático.

A única mecânica que fica devendo é o novo sistema de Heat Rage. Ele permite que você sacrifique sua barra inteira de Heat (alimentada por aplicar e levar dano) por uma habilidade limitada de causar mais dano, evitar ser atordoado, e realizar Heat Actions específicas, as quedas brutalmente divertidas da série. É uma ferramenta útil no papel, mas, quando ativada, a câmera dá muito zoom em Kiryu, e você perde muita visão periférica para tornar prática esta técnica em lugares lotados ou lutas mano a mano mais difíceis.

Outro problema é um que está presente em todas as versões do jogo – a apresentação visual inconsistente. Enquanto as cenas que entregam pontos cruciais da trama são absolutamente espetaculares – com modelos de personagens estranhamente realistas, cinematografia dramática e performances excepcionais de japonês – as cenas que mostram momentos menores, como sub-histórias, caem muito em qualidade. Como em jogos anteriores, elas possuem modelos bem menos detalhados dos personagens, e animações travadas ou, às vezes, nem existentes. Ângulos estáticos de câmera também têm grande culpa em agravar esse tédio. As sub-histórias são uma parte significativa dos jogos Yakuza, então os fracos gráficos continuam a ser um erro infeliz. Yakuza 6 é, pela primeira vez na série, totalmente dublado, e, porque as performances melhoram muito os momentos bem humorados e sinceros que essas missões contêm, é uma pena que a apresentação não recebe o mesmo esforço.

Yakuza 6 diminui seu escopo, mas dobra o que torna a série ótima. Sua representação única e fascinante de uma experiência japonesa moderna vale a pena ser jogada mesmo se você for um novato. A narrativa é dramática e sincera, e os personagens carismáticos do jogo – vindos de todos os caminhos da vida – são interessantes. O mundo é denso e recompensador, o sistema de combate dinâmico se mantém empolgante mesmo depois de você enfiar a porrada em milhares de inimigos, e, talvez o mais importante, Yakuza 6: The Song of Life serve como uma conclusão satisfatórias à turbulenta saga de seu amado ícone, Kazuma Kiryu.

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Yakuza 6: The Song of Life / PlayStation 4

Pontos Positivos
Narrativa sincera e cativante por todo o jogo
Sistema de combate dinâmico e empolgante raramente fica chato
Mundo denso te recompensa por se perder nele
Conclusão satisfatória à história de Kiryu
Pontos Negativos
Apresentação sem brilho em sub-histórias continuam desapontando
Minigame Clan Creator parece vazio diante de seu escopo
Atividades secundárias picantes seguem sendo conflitantes com o caráter de Kiryu
8
Bom
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Yakuza 6: The Song of Life

  • Data de Lançamento: 17 de abril, 2018
    • PlayStation 4
    Yakuza 6: The Song of Life mostra o capítulo final na jornada de Kazuma Kiryu.
    Desenvolvedora:
    Ryu ga Gotoku Studios
    Publisher:
    SEGA
    Gênero(s):
    Ação, Aventura
    16 anos
    Conteúdo Impactante, Violência Extrema, Nudez, Conteúdo Sexual, Drogas Lícitas