REVIEW

A Plague Tale: Innocence review — Desolador e inquietante

  • Data de Lançamento: 14/05/2019
  • Data do Review: 15 de Maio, 2019
  • PC, PlayStation 4, Xbox One

Um pútrido mar de ratos.

por Khee Hoon Chan em 14 de maio, 2019

traduzido por Pedro Scapin | @PedroScapin17 em 15 de Maio, 2019

Uma das cenas mais macabras de A Plague Tale: Innocence é a homônima praga, manifestada na forma de ratos amaldiçoados. Esses vermes possuem uma presença malévola de outro mundo. Seus guinchos e arranhões incessantes em pedras e cadáveres criam uma cacofonia vinda diretamente de um pesadelo.

Assim como sujeira de esgoto, essas criaturas saem de fendas em direção a vítimas desavisadas, devastando-os até que se tornem apenas pele e osso. É uma visão incrivelmente grotesca e arrepiante. E uma visão que ficará na sua cabeça por muitas horas.

Mas ainda que ratos sejam uma presença constante, eles servem meramente como um pano de fundo para momentos mais pungentes ao lado dos personagens que você passará a maior parte do tempo: Amicia e Hugo de Rune, dois jovens irmãos que caem subitamente nesse cenário de guerra e pestilência.

A Plague Tale Innocence

A Plague Tale: Innocence se passa na Guerra dos Cem Anos, durante a Idade Média, e o conforto que os irmãos conheciam quando eram crianças em uma família nobre francesa foi impiedosamente estilhaçado. A Peste Negra causou terror no país. E a maioria da população morreu por conta da praga ou foi comida por ratos.

Junto a isso há a Inquisição, um grupo fanático de cavaleiros que quer colocar as mãos nos últimos descendentes dos Rune. Cercada de piscinas imundas de ratos e caçada por assassinos, a dupla de irmãos precisa ser inteligente e furtiva para fugir dessa confusão. Mas além de escapar do tumulto no controle da adolescente Amicia, você ainda tem que tomar conta de Hugo, que tem cinco anos e entra em pânico e grita quando sua irmã se afasta demais – algo que qualquer criança faria se estivesse cercada por um miasma infinito de morte e decadência.

Esse cenário tem a aparência de uma elaborada missão de escolta, mas, felizmente, o jogo sabe como subverter o típico tédio de games desse estilo. E grande parte disso se deve à forma como a inocência humana funciona. Apesar de sua carência e ingenuidade, Hugo é carismático. Sua curiosidade infantil atravessa a desgraça de suas circunstâncias, permitindo que ele aprecie a beleza mesmo nos tempos mais sombrios – e ajude Amicia a fazer o mesmo.

A Plague Tale Innocence

Em uma cena, ele corre para um píer próximo, fascinado pela curiosa visão de bolhas feitas por sapos no lago. Até mesmo um pequeno gesto seu, como colher uma flor – um símbolo de tenacidade em tempos tão assustadores – para colocá-la gentilmente nas tranças de Amicia, captura o calor desse relacionamento.

Momentos assim são dolorosamente doces. E você vai compartilhar o sentimento cada vez mais próximo de Amicia por Hugo. Seu companheirismo fará falta quando ele precisar fazer dupla com outros personagens que conhece ao longo do caminho.

Em um nível mecânico, também ajuda o fato da inteligência artificial dos personagens não ser ilógica, pelo menos na maioria das vezes. Hugo não costuma correr atrás de uma borboleta no meio de uma situação problemática, mas o jogo ainda tem seus momentos onde sua companhia pode acidentalmente dar um mergulho kamikaze em uma piscina agitada de ratos. Ainda bem que esses momentos são raros.

A Plague Tale Innocence

Com a sobrevivência sendo o tema central do jogo, a inocência é, em seu cerne, uma série de quebra-cabeças de sobrevivência. Você terá que evitar colônias vorazes de ratos, assim como os cavaleiros da Inquisição.

Os roedores têm pavor de luz e fugirão de sua mera presença – uma fraqueza que você pode explorar para atravessar campos de batalha e cidades. Ainda assim, a chave para a sobrevivência é a vigilância. Fique perto demais dos ratos e eles tentarão te devorar. E quando poucos dos bichos conseguem te pegar, Amicia pode se afogar em um turbilhão de vermes enquanto eles a mastigam de maneira perversa. Poucas cenas nos videogames conseguem ser tão sombrias quanto essa, ampliando a atmosfera de desespero e perigo do jogo.

O que definitivamente é menos impressionante, no entanto, são os membros da Inquisição. Enquanto crianças, Amicia e Hugo não sobrevivem à maioria dos confrontos diretos contra esses brutos de armadura, que têm sede de usar suas espadas e clavas nas crianças.

A Plague Tale Innocence

A sorte dos irmãos Rune é que os cavaleiros também são bem burros e facilmente distraídos por barulhos altos ou movimentos inesperados, como a quebra de um pote próximo a seus pés ou uma pedra lançada em um baú repleto de armaduras.

Depois de olhar para o objeto estranho por um minuto, o cavaleiro resmungará uma das variações de “Acho que foi só minha imaginação” – a frase mais banal usada por NPCs em jogos de stealth – e voltará para seu posto, completamente aturdido pelo som. Para um game cuja narrativa depende tanto da atmosfera de medo e terror, situações ilógicas como essa estragam o clima.

Dito isso, os quebra-cabeças do game eventualmente aumentam de dificuldade nos últimos capítulos, tornando os confrontos inevitáveis em certos momentos. Por mais estúpidos que os cavaleiros sejam, eles ainda estão trajando armadura e armas pesadas – e podem ser inimigos devastadores.

A Plague Tale Innocence

Para compensar sua falta de força bruta, Amicia é capaz de melhorar e modificar seu estilingue e suas munições com os materiais adequados e um toque de alquimia básica, transformando a humilde ferramenta em uma arma versátil e letal.

E Hugo também não fica para trás. Acessar locais apertados e de difícil acesso é sua especialidade. E ele tem coragem o suficiente para engatinhar sozinho por buracos menores para abrir novos caminhos para Amicia. Outros personagens, como o talentoso jovem alquimista Lucas e o par de órfãos Mellie e Arthur, possuem capacidades bem diferentes. E cada um deles tem seu lugar nesta história.

Cenas de desolação e tragédia marcam esse mundo inocentemente sombrio e intrigante, amarradas a uma narrativa que é genuinamente tocante sem ter que recorrer à romantização do sofrimento de crianças. Apesar de situações desafiadoras, os irmãos se viram com a pouca ajuda que tem, apoiados pela desenvoltura espantosa de Amicia, para sobreviver a essa catastrófe.

A Plague Tale Innocence

O jogo também enaltece o impacto cataclísmico da Peste Negra por meio de uma lente de horror cósmico, invocando a assustadora atmosfera das histórias de H.P. Lovecraft. E os ratos rastejantes, seja se esgueirando pelos cantos escuros sob a cidade ou fazendo fila atrás de um cadáver semi-comido, nunca deixam de ser perturbadores.

Por outro lado, os vilões são dolorosamente unidimensionais, com plot twists previsíveis. Isso transforma algumas das revelações em coisas sem brilho.

Colocando de lado as recriações poderosamente macabras da praga e dos ratos, A Plague Tale: Innocence é, no fim, uma história emotiva de resiliência contra probabilidades angustiantes. O título do jogo é uma referência óbvia à perda de inocência que os jovens sofrem ao longo de sua jornada. Mas, mais que isso, ele também fala sobre as profundezas da depravação humana e do agonizante preço da sobrevivência no meio da guerra.

A Plague Tale Innocence

Apesar dos incessantes horrores dos primórdios da inocência, o jogo ocasionalmente deixa entrar um fraco raio de esperança. Um de meus momentos favoritos é quando Amicia avista uma flor silvestre em uma caminhada solitária pela cidade, aninhada na ruína dos asquerosos covis de ratos. Sem seu irmão por perto, ela a colhe e a coloca gentilmente em seu próprio cabelo – uma recordação pessoal para continuar marchando em meio a momentos duros. E um testamento de suas crescentes força e tenacidade.

Apesar de lapsos de previsibilidade, momentos como esse farão você engolir em seco. Assim como aconteceu comigo.

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3 0
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A Plague Tale: Innocence / PC, PlayStation 4, Xbox One

Pontos Positivos
Narrativa emocionante, particularmente na relação entre os dois irmãos.
Personagens são genuinamente amáveis.
Os ratos nunca deixam de ser aterrorizantes, e sua aparência é uma das mais arrepiantes dos games.
Pontos Negativos
Os cavaleiros da Inquisição podem ser divertidamente desatentos, o que tende a quebrar a imersão.
Vilões dolorosamente unidimensionais.
8
Bom
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A Plague Tale: Innocence

  • Data de Lançamento: 14 de maio, 2019
    • PC
    • PlayStation 4
    • Xbox One
    Desenvolvedora:
    Asobo Studio
    Publisher:
    Focus Home Interactive
    Gênero(s):
    Ação, Aventura
    18 anos
    Sangue, Violência, Linguagem Imprópria