REVIEW

Darksiders III review — Uma chance desperdiçada

  • Data de Lançamento: 27/11/2018
  • Data do Review: 3 de dezembro, 2018
  • PC, PlayStation 4, Xbox One

Seria este o apocalipse da série?

por Gabriel Oliveira em 3 de dezembro, 2018

Darksiders III é aquele tipo de jogo que, ao apenas checar todas as opções de gameplay que fazem parte da campanha, parece um projeto digno dos jogos anteriores. Há liberdade para ir e voltar pelos cenários, quebra-cabeças, variedade e aprimoramento de armas, um sistema de evolução de habilidades e lutas com chefões que exigem diferentes estratégias.

Justamente por isso, é uma pena que todos esses acertos estejam dentro de um pacote mal executado, no qual boas ideias acabam prejudicadas por diversos problemas técnicos, como as constantes quedas na taxa de quadros, as longas telas de carregamento e o design pobre de personagens e cenários.

Com a missão de suceder dois games que tiveram boa recepção da crítica e do público, formado por fãs de títulos como Devil May Cry e The Legend of Zelda, Darksiders III dá continuidade a essa reinterpretação interessante dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse numa guerra entre anjos e demônios. Mas claramente falha em ter o mesmo nível de qualidade e criatividade de gameplay de jogos de quase 10 anos atrás.

Furiosa

Em Darksiders III, o jogador controla Fury (Cólera), irmã de War (Guerra) e Death (Morte), protagonistas dos outros dois games da série. A trama acontece logo após o prólogo do primeiro Darksiders, quando War vai à Terra durante o confronto entre anjos e demônios e acaba acusado de traição pelo Conselho das Chamas, grupo que faz o meio de campo entre céu e inferno.

O jogo segue o modelo de histórias paralelas focadas em cada um dos quatro cavaleiros. Fury recebe do Conselho das Chamas a missão de caçar alguns dos sete pecados capitais que se espalharam sobre a Terra, mas acaba tomando para si a responsabilidade de derrotar todos em vez de dividir a responsabilidade com seus irmãos. Em troca, ela deseja ser declarada a líder dos Quatro Cavaleiros.

Não é uma trama de encher os olhos, mas vale destacar que Fury passa por transformações importantes ao longo da campanha e começa a lutar por ideais menos egoístas. Seu próprio sentimento de desprezo pela raça humana (ou o que restou dela), por exemplo, vai se transformando à medida que se progride na história.

Mas basta começar a campanha para também se iniciarem os problemas. Logo de cara, é possível ver que Darksiders III é um projeto de baixo orçamento. Com cenários, inimigos e, pior, a própria Fury apresentando um design pobre, especialmente tratando-se de um jogo lançado a preço de AAA.

Não é exagero comparar o visual de Darksiders III ao de alguns games lançados entre o meio e o fim da geração de PlayStation 3 e Xbox 360. O mais curioso, porém, é que alguns chefões contam com um design muito mais caprichado e detalhado do que o restante dos personagens, o que evidencia ainda mais a falta de cuidado na maior parte da aventura.

Mas os maiores problemas de Darksiders III estão no gameplay. E a batalha com o primeiro dos sete pecados capitais é um ótimo exemplo disso. A mescla de elementos de plataforma com hack and slash é uma solução criativa, principalmente pelo fato de Fury ter apenas habilidades básicas no começo da campanha. Só que aí você precisa lidar com a câmera do jogo.

Se estiver próximo de uma parede e precisar mudar sua perspectiva manualmente para poder enxergar o inimigo, pode se preparar para bugs que te deixarão ainda mais vulnerável a sofrer grandes quantidades de dano.

Mesmo que você coloque Fury numa área mais central antes de girar a câmera, é possível que ela trave sem um motivo aparente e aí o azar é seu. Se isso acontecer enquanto você está cercado por monstros ou enfrentando inimigos mais fortes, não tem jeito. E como a única forma de evitar um ataque é usando a técnica de esquiva no exato momento em que você é atacado, o bom funcionamento da câmera seria obrigatório nessas horas. Não é o que acontece.

Outro aspecto imperfeito de Darksiders III é a progressão pelo cenário. Em diversos momentos, Fury usa as Farpas do Desprezo (uma espécie de chicote com várias lâminas) para se prender a correntes e barras de ferro e atravessar declives ou abismos. Em alguns momentos, porém, mesmo tendo a nítida impressão de que o comando para Fury se prender a esses objetos foi dado corretamente, a personagem simplesmente cai.

A construção dos cenários também é um ponto problemático de Darksiders III. Embora se assemelhe a um Metroidvania, com circulação livre pelo mundo do jogo e o desbloqueio de áreas inacessíveis por meio de habilidades obtidas ao longo da campanha, o jogo conta com várias cenários muito parecidos, o que entre idas e vindas pode induzir o jogador a pensar que está em um local, quando na verdade está em outro. A inclusão de um mapa, item recorrente em jogos do gênero, atenuaria o problema, mas também não é o caso.

Para piorar, cada vez que você vai até Vulgrim, o demônio comerciante presente desde o primeiro Darksiders, e decide usar seus portais para viajar rapidamente a outras áreas do mapa, Darksiders III nos contempla com longas terras de carregamento, muitas das quais passam dos 40 segundos. Como as viagens rápidas são um recurso usado com frequência, torna-se extremamente incômodo passar por esse tipo de situação várias vezes.

Sistema de habilidades e quebra-cabeças quase salvam o jogo

Contudo, nem tudo são espinhos em Darksiders III. Os pontos positivos do jogo, curiosamente, acabam aumentando o gosto amargo que fica por conta da falta de polimento em todo o resto. E um dos aspectos mais criativos são os quebra-cabeças que dão acesso a novas áreas.

Conforme evolui, Fury ganha acesso a novas habilidades e armas. Com as Correntes do Desprezo, que em muito se assemelham às Lâminas do Caos de Kratos, Fury também conquista a habilidade de executar saltos flamejantes e alcançar grandes alturas. Isso também permite o acesso a novas áreas, tanto ao queimar paredes viscosas como ao acionar mecanismos que destrancam portões.

As Lanças do Desprezo, por sua vez, conferem à Fury uma série de golpes elétricos e a habilidade especial de dar saltos planados e estendidos, que a permitem alcançar áreas antes inacessíveis. A boa notícia é que, nesse aspecto, Darksiders III funciona muito bem, o que torna o jogo muito mais interessante a partir da metade da campanha.

Especialmente nas lutas contra chefões e outros monstros poderosos, os combates também são um ponto onde Darksiders III agrada bastante (desde que a câmera colabore). Tanto as Farpas do Desprezo como as armas secundárias mudam e melhoram ao longo da aventura.

Ao acionar sua transformação especial, que dura aproximadamente 20 segundos, Fury é capaz de causar enormes quantidades de dano e, de quebra, ficar praticamente invulnerável. As armas secundárias também vêm com habilidades especiais bastante úteis em combate, com destaque para os tornados elétricos vinculados à Lança do Desprezo.

O grande problema é que, depois de algumas horas, os combates contra a maioria dos monstros se tornam repetitivos. E os desafios mais interessantes do jogo consistem em resolver os quebra-cabeças e derrotar os chefões. Essas tarefas, infelizmente, ocupam um espaço pequeno da campanha como um todo e não são suficientes para apagar as várias falhas técnicas de Darksiders III.

Um projeto que poderia ter ido mais longe

Darksiders III é um jogo que deixa uma sensação agridoce. Por um lado, apresenta falhas graves demais para se justificar como um título com preço e posicionamento similares ao de títulos como Red Dead Redemption 2 e Assassin’s Creed Odyssey. O game tem diversos bugs, quedas bruscas de resolução e uma câmera que atrapalha justamente nos combates mais difíceis.

Por outro, deixa a impressão de que, com mais alguns meses de desenvolvimento, a maior parte desses problemas poderia ser eliminada, o que o deixaria mais perto do nível de qualidade de seus antecessores graças às boas lutas contra chefes e a resolução divertida de quebra-cabeças.

Como terceira parte de um projeto que ainda precisaria de mais dois jogos para encerrar de fato a sua história – também seriam necessários o episódio com Strife (Conflito) e um quinto com todos os Quatro Cavaleiros reunidos – Darksiders III pode ter enterrado prematuramente a franquia. E hoje, por incrível que pareça, uma sequência parece mais ameaçada do que quando a THQ, publisher da série, declarou falência em 2013.

Salvo algum pacote de atualização que resolva com afinco os problemas do jogo, Darksiders III é uma página sem brilho de uma história que merecia mais em seu retorno.

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6 0
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Darksiders III / PC, PlayStation 4, Xbox One

Pontos Positivos
Sistema de evolução de personagem traz versatilidade aos combates com Fury.
Variedade de armas permite lutas dinâmicas.
Quebra-cabeças do jogo são criativos e desafiadores.
Pontos Negativos
Câmera é problemática e atrapalha muito nas lutas.
Design pobre de personagens e cenários destoa do valor do jogo.
Longas e constantes telas de carregamento tornam a campanha arrastada.
Quedas na taxa de quadros e bugs acontecem com frequência.
Maioria das lutas se torna repetitiva após algumas horas de campanha.
5
Regular

Sobre o Autor

Gabriel Oliveira

Jornalista fã de JRPGs, quadrinhos, mangás e Harry Potter. Entrei no mundo dos games com um Super Nintendo e ainda espero, provavelmente em vão, por uma sequência da série Chrono.

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Darksiders III

  • Data de Lançamento: 27 de novembro, 2018
    • PC
    • PlayStation 4
    • Xbox One
    Desenvolvedora:
    Gunfire Games
    Publisher:
    THQ Nordic
    Gênero(s):
    Ação, Aventura
    Pendente