REVIEW

Detroit: Become Human review — Errar é humano

  • Data de Lançamento: 25/05/2018
  • Data do Review: 13 de dezembro, 2018
  • PlayStation 4

Descarado.

por Peter Brown em 23 de maio, 2018

traduzido por Pedro Scapin | @PedroScapin17 em 13 de dezembro, 2018

Detroit: Become Human acontece num futuro desgastado onde andróides se tornaram tão realistas e profundamente integrados à sociedade que, com certeza, é uma questão de tempo até eles atravessarem para o outro lado e adquiram consciência.

Não há muito tempo investido na análise de como um evento aparentemente contornável pode acontecer. Detroit se foca primeiro nas experiências dos andróides durante o processo de seu despertar. E no seu choque em olhar para a humanidade pela primeira vez sem nada tapando seus olhos. No fim, cabe a você decidir como eles reagirão às adversidades.

É uma experiência leve de gameplay dividida em dezenas de capítulos com centenas de decisões para se tomar durante as cutscenes e sequências de exploração. O único desafio real é ser rápido, minucioso e perceptivo o suficiente para guiar os personagens em direção a decisões que sejam compatíveis com seu compasso moral – ou não, se você preferir histórias mais bagunçadas e caóticas.

Como resultado das inúmeras encruzilhadas de Detroit, poucos jogadores viverão seus eventos da mesma maneira. Momentos fundamentais que deram errado podem levar alguns personagens prematuramente à morte, mas até pequenas decisões podem ter um impacto prolongado no estado de pessoas, lugares e eventos. Muitas das decisões podem parecer mundanas a princípio, mas, por mais benigna que uma escolha possa parecer, elas se acumulam e gradualmente te puxam para a experiência individual dos personagens.

Detroit é propositalmente desenvolvido de maneira desordenada, te deixando com pequenos cliffhangers conforme o jogo pula da perspectiva de um personagem para o outro ao fim de cada capítulo, que tem de 10 a 20 minutos cada. Isso pode soar confuso, mas funciona quando os protagonistas Kara, Connor e Markus trazem algo diferente para a mesa. Essa variedade garante que você nunca fique entediado e quase sempre se surpreenda com o que acontece a seguir.

Kara, uma andróide governanta que no início pertence a um pai solteiro, viciado em drogas e abusivo, se torna uma guardiã de Alice, a pequena menina da qual ela toma conta. Kara é, infelizmente, ingênua, e, como resultado disso, ela e Alice estão constantemente em perigo. O fato de que perigo para Kara também significa perigo para uma jovem criança aumenta bastante o que está em jogo na hora de tomar decisões arriscadas. Você luta para protegê-las dos piores exemplos da raça humana e, apesar de ser fácil se identificar com as escolhas certas para garantir sua integridade, as fugas raramente são limpas.

Por outro lado, os capítulos de Connor são mais pessoais e curiosos. Ele é assistente de um detetive chamado Hank, que odeia sua presença por conta de um profundo preconceito, e os dois devem trabalhar juntos para resolver uma série de assassinatos ligados a andróides rebeldes. O parceiro de Connor não é muito agradável. Ele é muito grosso, mas, de qualquer forma, dá para tirar proveito dessa situação. Enquanto o dono de Kara é impassível e incrivelmente severo, Hank pode ser levado a confiar em você e a superar seu cinismo. Porém, nem sempre é fácil saber o que irá convencê-lo do seu valor.

Juntos, Hank e Connor irão regularmente investigar cenas de crimes. Você deve analisar os arredores, encontrar pistas e recriar eventos ao interpolar evidências. Nem toda cena de crime conta uma história completa, mas o processo de investigação é consistentemente cativante. A fidelidade de Connor aos humanos (e suas experiências em primeira mão ao lidar com o ódio gratuito de Hank) te dá uma chance de entender melhor os dois lados da confusa sociedade de Detroit. Se há um andróide em Detroit que merece uma história só pra ele e mais tempo de tela, ele é Connor.

O personagem mais importante do jogo, no entanto, é Markus. Ele está envolvido em algumas das cenas mais criativas de Detroit, apesar de ser extraordinariamente ausente de nuances. No começo, possui a mais afortunada das existências. Seu dono é um bondoso pintor idoso que o encoraja a ter liberdade de pensamento e trata Markus como se fosse seu filho. Ao mesmo tempo, o filho de verdade do pintor é um completo idiota que arrisca o bem-estar de seu pai e de Markus. Isso inevitavelmente acontece, e é daí que a trama maior de Detroit começa: a briga pela igualdade dos andróides.

A discussão é válida dentro desse contexto, mas a maneira com a qual a disparidade social entre humanos e andróides é mostrada em Detroit é tão milimetricamente parecida com o Movimento de Direitos Civis dos Estados Unidos que é difícil não ficar surpreso

Os andróides são obrigados a andar no fundo do ônibus, segregados de algumas áreas públicas e estabelecimentos privados, e, por algum motivo, forçados a usar escadas normais ao invés das rolantes. Quando Markus reúne outros andróides rebeldes, você pode escolher o slogan de seu protesto e uma das opções é “Nós temos um sonho”. Essas referências causam distração e em momento algum parecem ficar justificadas as referências a histórias de pessoas que de verdade sofreram – e continuam a sofrer – no mundo real.

Esses momentos são inesquecivelmente ruins, mas graças à força da história em outros pontos eles não estragam completamente o jogo. Detroit se supera ao apresentar situações horrendas. O perigo parece esperar a cada esquina. E já que se espera que você reaja rapidamente sob stress, não dá para evitar a ansiedade quando Kara ou Markus estão correndo risco de serem descobertos por humanos depois de se rebelarem.

Esses momentos podem ser silenciosos, mas essa falsa serenidade apenas amplifica a tensão. Às vezes, um passo errado é o que faz um capítulo até então pacífico virar de cabeça pra baixo, e você não quer se sentir responsável por ser o gatilho de uma série caótica de eventos. Em geral, você ainda tem chance de consertar uma situação ruim, mas com tantas ramificações pela frente, Detroit sempre acha um jeito de deixar uma cicatriz que você não vai se esquecer tão cedo.

Por mais poderosos que esses capítulos possam ser, são as cenas mais terríveis de Detroit que deixam uma impressão duradoura. Kara encara sua dose de terror, mas a transição de Markus para a liberdade é uma viagem infernal até os cantos mais sombrios desse versão fictícia de Detroit.

O jogo não seria efetivo em te trazer para esse mundo se não fosse a sua apresentação estelar. Alguns NPCs se destacam negativamente graças a valores de produção abaixo da média, mas isso porque a maioria dos personagens e cenas são renderizados lindamente. Mesmo que Detroit tropece com frequência, ele ainda assim é quase sempre cativante.

O autor e diretor David Cage é conhecido por criar esses tipos de jogos (Heavy Rain, Beyond: Two Souls), mas Detroit é o primeiro game que ao fim de cada capítulo traz uma análise das escolhas que você fez. Essa ferramenta te permite refletir sobre suas ações e perceber que poderia ter feito algo de maneira diferente – e, caso você queira, voltar imediatamente e tomar outras decisões.

No fim das contas, esse feedback é prejudicial e destrói um pouco a imersão ao te lembrar que você está jogando, reduzindo sua influência a uma pontuação que pode ser trocada por personagens desbloqueáveis e e documentários. Até onde se sabe, não há narrativa que justifique colocar essa informação em primeiro plano antes do game ser finalizado. É útil quando você está atrás de troféus ou perto de encarar as consequências de suas ações, mas é um saco ser tratado como se esta seja sua abordagem padrão. Não há como desabilitar esses fluxogramas – e isso seria uma boa ideia.

Esses gráficos inevitáveis, assim como a apropriação descarada da história norte-americana, afundam a história de Detroit. O jogo possui aptidões para ser memorável e, de muitas maneiras, partes dele permanecerão comigo por um longo tempo. É demasiadamente bonito e pungente para se esquecer com rapidez.

Apesar de ter sido feito para ser jogado várias vezes, é difícil imaginar um retorno à Detroit para “consertar erros” ou esgotar cada possível resultado em nome de um 100%.

Eu joguei com minhas melhores intenções. As coisas nem sempre aconteceram como quis, mas esse foi um fardo que escolhi carregar e a história se beneficiou do meu comprometimento. Após completar o jogo, tentei voltar e lutar contra meus instintos para ver o que acontecia se escolhesse um caminho mais sombrio. Mas nunca pareceu valer a pena.

Detroit merece ser jogado, mas luta para encontrar o equilíbrio correto entre te dar liberdade de escolha e te lembrar de que se trata apenas de um jogo no fim das contas. David Cage e a Quantic Dream estão se aproximando de acertar em cheio no seu estilo de jogo, mas é óbvio que os dois ainda têm muito para melhorar.

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3 0
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Detroit: Become Human / PlayStation 4

Pontos Positivos
Excelente apresentação te puxa para o mundo e dá vida aos personagens.
Três histórias que complementam umas às outras de maneiras fascinantes.
Repleto de momento inesquecíveis.
Pontos Negativos
Fluxogramas te lembram constantemente que isso é um game e enfraquecem seu envolvimento.
Apropriação descarada de eventos da vida real se destaca negativamente.
Alguns personagens secundários exibem uma óbvia falta de detalhes.
7
Bom
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Detroit: Become Human

  • Data de Lançamento: 25 de maio, 2018
    • PlayStation 4
    Jogo produzido pela Quantic Dream, exclusivo de PS4, que dará um novo nível de liberdade de escolhas ao jogador.
    Desenvolvedora:
    Quantic Dream
    Publisher:
    Sony Interactive Entertainment
    Gênero(s):
    Ação, Aventura
    Pendente