REVIEW

Mortal Kombat 11 review — Sem medo de ser grande

  • Data de Lançamento: 23/04/2019
  • Data do Review: 25 de Abril, 2019
  • PC, PlayStation 4, Switch, Xbox One

Netherrealm se prontificou a criar o jogo de luta mais ambicioso da história... e acertou em cheio!

por Gabriel Oliveira em 25 de Abril, 2019

Nunca houve um jogo de luta tão ambicioso quanto Mortal Kombat 11. O terceiro episódio pós-reboot da série, em 2011, eleva à última potência a fórmula criada pela Netherrealm oito anos atrás. E aprimorada tanto em MK como em Injustice.

Mortal Kombat 11 aposta numa história que empolga pela ação intensa e apresentação visual rica em detalhes. Mas que brilha por destacar as relações entre os personagens. E retratar o seu amadurecimento quando versões do passado e presente se encontram e borram (ainda mais) as linhas que separam heróis e vilões desse universo.

Ao mesmo tempo, o novo jogo amplifica todo o gore e violência que sempre caracterizaram Mortal Kombat, oferecendo um gameplay diversificado em estilos de luta e com opções variadas de personalização,

E o resultado final? Uma espécie de recado do estúdio a franquias como Street Fighter e Tekken, que, embora tenham títulos com ótimo gameplay, ainda deixam a desejar quando se trata de oferecer uma experiência completa e digna das possibilidades abertas desde a geração passada – especialmente na hora de contar uma história cujos eventos realmente tenham impacto na vida dos seus personagens.

Certamente, Mortal Kombat 11 ainda traz falhas já conhecidas da série. É o caso dos golpes de comandos simples que conseguem ser extremamente punitivos. E da hitbox (forma invisível que determina quando um golpe pega ou não) dos personagens, que nem sempre reflete o que de fato acontece na tela. Ainda assim, é seguro afirmar que Mortal Kombat 11 é o maior jogo de luta já criado.

MAIS MORTAL KOMBAT 11:

Não mexa com o tempo

Um dos principais pilares da nova era de Mortal Kombat é o seu enredo. E ele atinge seu ápice em MK11, cuja trama se passa 2 anos após os eventos de Mortal Kombat X. Aqui, uma versão corrompida de Raiden cumpre a promessa feita por ele mesmo após a decapitação de Shinnok em Mortal Kombat X. E inicia “ataques preventivos” para que o Plano Terreno não seja mais ameaçado pela Exoterra e pelo Submundo.

Em posse do amuleto de Shinnok, Raiden abraça sua faceta mais sombria e se torna uma figura sempre propensa à guerra. Essa postura constantemente agressiva e autoritária do Deus do Trovão é questionada até mesmo por guerreiros da Terra, como Johnny Cage, que hesita em realizar um ataque ao Submundo uma vez que, diferentemente de Raiden, ele “tem família”.

É nesse contexto que Kronika, uma entidade que manipula as areias do tempo desde épocas imemoriais, põe em prática o plano de apagar a existência de Raiden. Como já havia sido mostrado em alguns trailers divulgados antes do lançamento de Mortal Kombat 11, Kronika aparece para Shinnok logo após ele ser decapitado no final de MK X, revelando que anulará o desequilíbrio no mundo causado por Raiden.

Em resumo, tudo que aconteceu na história de Mortal Kombat até hoje sempre esteve dentro nos planos de Kronika… exceto o momento em que Raiden decapita Shinnok e entrega a cabeça do ex-Deus Ancião às versões corrompidas de Kitana e Liu Kang. Uma forma de aviso para que eles, agora imperadores do Submundo, não mexam com o Plano Terreno.

Para restaurar esse equilíbrio e apagar a existência do Deus do Trovão, Kronika manipula as areias do tempo para resgatar versões do passado de vários guerreiros. Porém, ao trazer figuras que ela acredita que lhe serão úteis nessa missão, como Shao Khan, Erron Black e Baraka, vários heróis do passado, como Liu Kang, Kung Lao, Kitana, Sonya Blade e Johnny Cage, também reaparecem e unem forças com os guerreiros do presente e a versão não corrompida do próprio Raiden.

E diferentemente de Mortal Kombat X, que indicava uma passagem de bastão para uma nova geração de protagonistas, MK11 centra sua trama velhos conhecidos dos fãs. Embora Cassie Cage e Jacqui Briggs ainda sejam personagens importantes, a Netherrealm optou por deixá-las como figuras secundárias, especialmente conforme a história progride para seu clímax.

Além disso, novos guerreiros como Kung Jin e Takeda, introduzidos em MKX, simplesmente desaparecem da história sem qualquer tipo de explicação. Levando-se em conta que ambos eram personagens extremamente importantes no jogo anterior, esse descaso com ambos foi uma bola fora da Netherrealm, goste-se ou não da dupla.

Ainda assim, Mortal Kombat 11 dá uma dimensão épica a cada evento da história. Poder ver as versões jovens de Liu Kang, Kitana e Kung Lao assumindo novamente o papel de heróis da trama, mesmo que em suas versões do passado, soa como um pedido de desculpas da Netherrealm pelo papel de pouquíssimo destaque que os três tiveram em MKX.

Além disso, os encontros entre as versões do passado e do presente dos personagens, como Johnny Cage e Jax, evidencia como os eventos trágicos que eles vivenciaram ao longo das últimas décadas os impactaram de diferentes formas. Enquanto o Cage cinquentão aparece como uma figura surpreendentemente madura e de liderança na proteção do Plano Terreno, sua contraparte mais jovem nos lembra o quanto a arrogância e canastrice do ator são, ao mesmo tempo, irritantes e divertidas.

No caso de Jax, vemos que sua versão mais jovem é obstinada e impetuosa, ao passo que a contraparte mais madura do militar é amargurada pelos traumas e perdas do passado. E a relação dessas duas representações do personagem com sua filha Jacqui Briggs evidencia ainda mais esse contraste.

Esse é um dos maiores méritos de Mortal Kombat, especialmente para um jogo de luta. Ao longo dos últimos anos, quem é fã da série passou a se importar de fato com o destino dos personagens, entender suas mágoas e traumas e perceber que até mesmo alguns vilões do jogo podem, lá no fundo, ter uma motivação compreensível para algumas de suas ações.

Em alguns casos, passei a me questionar até mesmo se alguns desses personagens são de fato vilões ou um simples produto de um mundo em constante conflito – especialmente ao descobrir que Kronika manipula praticamente todos os eventos que acontecem nele. Mais do que vilões, muitos desses personagens são apenas peões de jogo de um xadrez no qual apenas figuras extremamente poderosas são capazes de dar o xeque-mate.

Mortal Kombat 11 é um dos maiores thrillers dessa geração de jogos, em qualquer gênero, e não é nenhum exagero afirmar que sua história é, com alguma sobra, o melhor filme já feito para um título de luta. Também é seguro afirmar que o mundo do jogo nunca mais será o mesmo após os eventos de MK11, qualquer que seja o final que você consiga ao fim da jornada.

Gameplay técnico, cadenciado… e extremamente punitivo

O fator mais importante para determinar a vida útil de um jogo de luta é o seu gameplay. Afinal, se o modo história pode ser terminado em 5 ou 6 horas, contando batalhas e as próprias cenas em CGI, o que vai determinar a relevância de Mortal Kombat 11 nos próximos anos é o sistema de combate. Nesse aspecto, o jogo tem enormes acertos que o colocam como um dos melhores, se não o melhor, fighting games dessa geração. Porém, o título repete vícios historicamente presentes na franquia.

Quem jogou Mortal Kombat X, por exemplo, percebe de cara que o jogo está mais cadenciado, o que diminui um pouco o ritmo das lutas em benefício de combates mais técnicos e estudados. Levando-se em consideração que balanceamento não era um ponto forte de Mortal Kombat X, é notável que a Netherrealm tenha trabalhado para evitar que personagens atiradores de projéteis, por exemplo, levem uma vantagem injusta contra guerreiros de pouca mobilidade (estou falando de você, Kotal Khan).

Não importa qual seja o seu estilo de jogo, MK11 sempre terá um personagem que, se explorado corretamente, poderá ser extremamente efetivo. A lista de comandos é grande, embora não gigantesca, mas mesmo combos curtos podem causar enormes quantidades de dano. A chave aqui está em descobrir quais combinações são efetivas e, principalmente, quando usá-las sem correr um risco de levar um contra-ataque que, com único movimento, faz um belo estrago.

Quem está familiarizado com os jogos da série sabe que isso está longe de ser uma novidade. Os ganchos continuam sendo bastante punitivos. E o prejuízo causado ao oponente é ainda maior se a técnica é usada no momento do contra-ataque. Além disso, ficar simplesmente na posição de defesa não é a postura mais indicada, uma vez que projéteis e golpes especiais ainda minam a barra de vida de qualquer personagem.

E embora esse aspecto punitivo à defesa seja uma marca registrada de Mortal Kombat, é inegável que jogadores mais experientes saberão usar bem esse recurso para vencer seus adversários na reta final de lutas. No caso de personagens com pouca mobilidade ou sem técnica de teleporte, exercer esse tipo de pressão é ainda mais fácil em momentos críticos.

Há, ainda, a prevalência de um velho problema da série: a hitbox. Não é nada incomum que um lutador solte um gancho, erre e o oponente no instante seguinte, sem se mexer, execute rigorosamente o golpe da mesma distância e acerte.

É preciso ressaltar, porém, que MK11 oferece mais opções para livrar os jogadores desse tipo de situação do que qualquer outro jogo da série. O Fatal Blow, por exemplo, é ativado quando a barra de vida de um personagem está abaixo de 30%. Se usado na hora certa, pode contribuir de maneira decisiva para uma virada. A técnica, porém, só pode ser usada uma vez por luta contra um oponente. Caso o jogador erre, no entanto, o Fatal Blow é novamente carregado após algum tempo (o drama é sobreviver até lá).

Além do Fatal Blow, que nesta versão substitui o antigo X-Ray, MK11 também traz os Crushing Blows, técnicas que podem ser usadas algumas vezes por luta como contra-ataques e ativam uma animação que mostra as entranhas dos personagens. Os Crushing Blows causam grandes quantidades de dano e, como não exigem comandos complexos, também podem determinar de forma decisiva os rumos do combate.

Outra novidade importante de Mortal Kombat 11 são as barras de ataque e defesa. No caso das barras de defesa, elas dão ao jogador o poder de interromper combos, usar rolamentos para escapar do oponente e até mesmo realizar defesas perfeitas, que impedem o chip damage e consomem uma parte da barra de defesa. Após essas técnicas serem usadas, porém, a barra de defesa começa a ser recarregada.

Já a barra ofensiva oferece um número de opções menor e serve basicamente para executar versões mais poderosas de determinados golpes, que resultam em altas quantidades de dano.

Faça do seu jeito

O recurso mais interessante de MK11, porém, está na possibilidade de montar sua própria versão dos personagens, combinando os movimentos que melhor se encaixem ao seu estilo de jogo. Embora todos os personagens venham de cara com dois estilos de luta pré-definidos, os jogadores podem criar sua própria interpretação de Liu Kang, Kitana, Sub-Zero ou Jade.

Esse recurso dá ao jogo um quê de imprevisibilidade, uma vez que só é possível saber qual combinação de habilidades exclusivas foi escolhida por seu adversário dentro da própria luta. É uma evolução fundamental em relação a Mortal Kombat X, cujos estilos de luta pré-definidos impediam um jogador de ter um personagem com movimentos que melhor se encaixassem ao seu perfil.

Dentro dessa personalização, cada jogador pode preencher até três slots com movimentos exclusivos. No entanto, é preciso destacar que habilidades mais poderosas consomem de uma única vez dois slots.

Ainda assim, todos os personagens vêm com uma série de movimentos básicos que estarão lá independentemente do estilo de luta que você escolha. Para quem gosta de testar tudo que um guerreiro tem a oferecer, MK11 tem um modo tutorial completo, que ensina desde o fundamentos básicos até explicações de nível avançado, ideais para os jogadores que pretendem passar os próximos anos imersos nas partidas ranqueadas.

O tutorial explica até mesmo quantos frames cada golpe gasta, o que permite ao jogador traçar estratégias de combate mais seguras, na qual o uso de golpes mais simples diminui a margem para oponentes emendarem contra-ataques.

Potencial para fazer história

Seja pela apresentação visual com maior riqueza de detalhes já feita em um jogo de luta. Pela história digna de produções hollywoodianas de alto orçamento. Ou pelo gameplay que oferece ao jogador a liberdade para criar “versões ideais” de seus personagens favoritos. Mortal Kombat 11 tem potencial para se tornar um título revolucionário não só para a franquia como também para o gênero de jogos de luta.

Ainda que alguns problemas relacionados ao gameplay, que já se tornaram uma marca da série, permaneçam intactos, a Netherrealm traçou para si própria uma meta extremamente ambiciosa em todos os aspectos e a atingiu com louvor

Mortal Kombat 11 é o último jogo da série para a atual geração de consoles, mas fecha essa passagem da franquia com chave de ouro. E joga no colo de concorrentes, como Street Fighter e Tekken, a responsabilidade de produzir títulos que pelo menos se aproximem do que a Netherrealm atingiu. Mortal Kombat 11 não teve medo de ser grande, e essa ambição resultou no jogo de luta mais grandioso já feito.

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8 0
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Mortal Kombat 11 / PC, PlayStation 4, Switch, Xbox One

Pontos Positivos
Modo história robusto e repleto de momentos marcantes.
Gameplay cadenciado e técnico.
Apresentação visual caprichada e rica em detalhes.
Liberdade de ampla personalização dos lutadores.
Modo tutorial completo para iniciantes e veteranos.
Pontos Negativos
Ausência de personagens importantes de Mortal Kombat X sem qualquer explicação.
Gameplay extremamente punitivo até mesmo com golpes de simples execução.
9
Muito Bom

Sobre o Autor

Gabriel Oliveira

Jornalista fã de JRPGs, quadrinhos, mangás e Harry Potter. Entrei no mundo dos games com um Super Nintendo e ainda espero, provavelmente em vão, por uma sequência da série Chrono.

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Mortal Kombat 11

  • Data de Lançamento: 23 de abril, 2019
    • PC
    • PlayStation 4
    • Switch
    • Xbox One
    Desenvolvedora:
    NetherRealm Studios
    Publisher:
    Warner Bros. Interactive Entertainment
    Gênero(s):
    Luta
    Pendente