REVIEW

Resident Evil 2 review — Voltando para casa

  • Data de Lançamento: 25/01/2019
  • Data do Review: 25 de Janeiro, 2019
  • PC, PlayStation 4, Xbox One

Remake atinge equilíbrio perfeito entre homenagem e reflexão sobre os mais de 20 anos da série e é a maior e mais humilde síntese do espírito de Resident Evil.

por Bruno Araujo em 25 de Janeiro, 2019

O remake de Resident Evil 2, que finalmente será lançado na próxima sexta-feira (25) após anos de ansiedade aguda, atinge o equilíbrio perfeito entre homenagem e reflexão sobre os mais de 20 anos de vida da série de survival horror da Capcom.

A reinterpretação do trabalho de 1998 liderado por Hideki Kamiya mata nossas saudades da delegacia de Raccoon City (o segundo cenário mais memorável de RE, mas o meu favorito), das suas paredes pintadas de sangue coagulado e até do babaca do chefe de polícia Brian Irons.

Ao mesmo tempo, traz um gameplay moderno baseado em Resident Evil 4, mas com menos foco na ação, e uma busca incessante por coesão numa série cujo enredo sempre teve muitas idas e vindas, muito diz que me diz.

O Resident Evil 2 de 2019 não tem a mesma dedicação a quebra-cabeças que outros capítulos da franquia e seu maior ponto fraco são os trechos em que você controla os personagens coadjuvantes, Ada Wong e Sherry Birkin.

Mas se daqui a outros 20 anos os videogames não existirem mais da forma que conhecemos e todos nós vivermos dentro da Matrix, as máquinas historiadoras de entretenimento eletrônico vão olhar para este remake como a maior e mais humilde síntese do espírito de Resident Evil: terror brutal e absoluto. Um verdadeiro zeitgeist.

Uma noite alucinante

Resident Evil 2 acontece dois meses depois dos incidentes na mansão Spencer, palco do primeiro jogo, com Leon S. Kennedy e Claire Redfield no posto de personagens principais.

Leon é um policial recém-admitido em Raccoon City e Claire está à procura do irmão Chris, protagonista de Resident Evil, de quem não tem notícia há tempos. Ambos seguem para a cidade sem saber que um vírus se espalhou e transformou a população em uma manada de mortos-vivos. Depois de se esbarrarem no meio do caminho, os dois acabam se ajudando para sobreviver.

A tragédia já era crítica e empática no Resident Evil 2 original. Afinal, saem de cena os agentes de elite da S.T.A.R.S. e entram dois jovens pegos de calças curtas em meio a um holocausto zumbi. No entanto, o remake ganha contornos incrivelmente verossímeis graças a um esforço claro em explicar tintim por tintim quem são as pessoas envolvidas na treta, por que elas são do jeito que são e por que o jogo está acontecendo do jeito que está acontecendo.

– “Mas por que você tem que juntar três medalhões para abrir um monumento no hall da delegacia?”, diz o jovem cético. Porque os policiais sobreviventes ficaram presos no prédio e descobriram uma saída secreta por ali, explica pacientemente a Capcom.

– “E como que pode a Claire, uma jovem de só 19 anos, ter as mesmas habilidades que Leon, que é policial?” Veja só, meu abrilhantado, ela recebeu do irmão um treinamento de artes marciais e armas de fogo.

– “E da onde vem aquele lança-foguetes milagroso você sabe quando?” É, isso é mais difícil de explicar, mas ainda assim no remake parece menos fantasioso do que no jogo original.

Esse tipo de contextualização pinta ao longo de toda a história e não só nos arquivos, principal fonte de lore de Resident Evil, mas também em diálogos, nos comentários de Leon e Claire e em cenas de corte bem redigidas, que explicam, mas não chateiam, a magia e o fantástico dessa franquia sobre armas biológicas no formato de zumbis.

Lacunas muito mais importantes que as citadas acima são preenchidas e satisfazem quem jogou o game de 1998. Enquanto que a narrativa como um todo ganha um nível de minúcias que expande essa jornada que começa numa delegacia, mas termina num laboratório subterrâneo de alta tecnologia. Tudo faz tanto sentido que o remake consegue ser mais assustadoramente real que o original.

Tirania do medo

É claro que ser um veterano de Resident Evil 2 traz um sabor e uma experiência especial na degustação desse novo prato. Basta pisar na delegacia de Raccoon City, desta vez recriada com o poderio tecnológico da RE Engine e numa atmosfera de devastação completa, para um filme de horror e sustos passar pela sua cabeça.

Momentos de pouca munição, de apenas uma erva azul no inventário, de Lickers impedindo o caminho para a sala com o próximo item importante. Isso, de certo modo, vai se repetir. Mas engana-se quem pensa que já viu de tudo só porque decorou os mapas e está pronto para os sustos.

A começar por essas duas figuras da imagem acima, que injetam uma dose de pânico e pavor difícil de descrever e digna de interromper o jogo para respirar e pensar no que fazer. Achou que o Mr. X só iria aparecer no cenário B? Achou errado.

Aqui chamado nominalmente de Tirano, ou Tyrant, a arma biológica T-00 persegue Leon e Claire persistentemente por todos os cenários de RE2 desde antes da metade da história, sempre com seus passos pesados e abafados que podem ser escutados de qualquer canto do departamento de polícia.

Viver sob a ameaça constante de Mr. X é aterrorizante. O inimigo é invencível e o máximo que você consegue fazer é retardá-lo e tirar seu chapéu (hehe… estou rindo, mas é de nervoso). As salas com a máquina de escrever, usadas para salvar seu progresso, se transformam num oásis em meio a um deserto de pedaços de corpos e memórias de um cotidiano destruído.

Tudo fica pior quando a nova geração de Lickers, apelidados aqui de Carnífices, se espalha pelos corredores. Ao contrário do Resident Evil 2 original, esses monstros infectados pelo T-Vírus andam pelas paredes e tetos e são uma ameaça ainda mais rápida e letal.

Tem ainda uma nova criatura nos esgotos, batalhas ligeiramente diferentes contra alguns dos chefões e até uma reorganização geográfica. A loja de armas Kendo, por exemplo, aparece na campanha de Leon após ele deixar a delegacia, num momento de muita emoção e sensibilidade rara na franquia Resident Evil.

Mas a principal diferença do remake é a câmera. O novo Resident Evil 2 deixa de lado a perspectiva com ângulos fixos, técnica usada até Resident Evil: Code Veronica, e usa a visão em terceira pessoa introduzida em Resident Evil 4. Felizmente, isso está longe de atenuar o medo ou facilitar os disparos.

Leon e Claire quase sempre estão em corredores estreitos e são lentos mesmo quando correm. E para atirar com precisão e força máximas, precisam aguardar alguns segundos com a arma em punhos até que a mira se feche nos zumbis. Ou seja, pânico, suor frio e tremedeira mesmo em conflitos mais simples.

A própria noção de atirar na cabeça dos zumbis, uma mecânica clássica de RE, cai por terra. No remake, é mais negócio destroçar os joelhos dos mortos-vivos e depois finalizá-los com a famigerada faquinha – que se desgasta com o uso. Essa e outras armas, como granadas, agora são classificadas como armas secundárias e podem ser usadas quando algum inimigo consegue agarrá-lo – mecânica tirada do remake do primeiro Resident Evil, lançado para GameCube.

Mesmo assim, o game pode parecer um pouco mais fácil que o esperado na dificuldade padrão e na primeira rodada, ou cenário A. A munição é escassa? É. Mas há várias opções de cura e o jogo tem um esquema de salvamento automático, o que dispensa a obrigatoriedade de usar as máquinas de escrever, e as famosas ink ribbons, para armazenar seu progresso.

Já a segunda rodada, ou cenário B, em que você joga com o outro personagem em situações complementares e ligeiramente diferentes das iniciais, é mais complexa. No meu caso, estava com Claire. E com menos armamentos e espaço no inventário precisei encarar um Tirano mais bravo que o normal e a presença de Lickers em vários pontos da delegacia.

Porém, essa não parece ser a maior preocupação do remake. O novo Resident Evil 2 quer te deixar permanentemente em estado de tensão, abrindo e fechando o mapa a todo instante para decidir qual é a melhor rota até uma caixa de munição que ficou para trás, qual é o plano para escapar do Tirano e como fazer para não ter uma síncope.

Clássico é clássico

Há dois anos, a Capcom espantou a maioria das dúvidas a cerca de Resident Evil com Resident Evil 7, uma visão totalmente diferente e moderna que expandiu os horizontes da série. Em 2019, a empresa olha para a direção oposta, mas sem deixar de refletir sobre o que é Resident Evil.

O remake de RE2 é nostálgico, mas incrivelmente tecnológico. A RE Engine recria criaturas asquerosas capazes de se despedaçar com disparos e ergue cenários incrivelmente atmosféricos, com luzes, estalos, sangue e engenhocas montando um verdadeiro quebra-cabeças do fim do mundo.

O remake de RE2 é moderno, mas fiel às suas raízes. O jogo balanceia a mobilidade de RE4 com a brutalidade de RE7, a tensão dos corredores apertados e a constante sensação de estar mais fraco do que o necessário para enfrentar Lickers, cães zumbis ou fugir do Tirano.

O remake de RE2 é pro passado, mas também pro futuro. A Capcom esclarece o que ficou mal-esclarecido na história até então, pra felicidade dos veteranos, e enriquece essa linha do tempo de Resident Evil, deixando o universo mais saboroso para quem ainda não manja dos paranauês do T-Vírus.

Os momentos com Ada Wong e Sherry Birkin, companheiras das campanhas de Leon e Claire, respectivamente, são redundantes, sem graça e quebram um pouco ritmo. O trecho com Ada deve durar no máximo 25 minutos e consiste em hackear painéis de força para ativar equipamentos. Já o gameplay com Sherry pelo menos destrincha um pouco o plano de fundo de Brian Irons. Mas ela tem apenas a incrível habilidade de se esconder. E por uns 15 minutos também.

Isso, no entanto, não afeta a experiência de exploração, narrativa e sobrevivência incríveis de Resident Evil 2. Se a saga de horror de Leon e Claire envelheceu mal, desconheço. Aqui, a Capcom mostra que RE2 é clássico porque é especial. Pode calçar seus chinelos, amiga. Com o remake de Resident Evil 2, finalmente voltamos para casa.

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Resident Evil 2 / PC, PlayStation 4, Xbox One

Pontos Positivos
Atmosfera de horror e devastação bota medo até no mais valente.
Equilíbrio entre homenagear o RE2 original e incorporar o que deu certo na série nos últimos anos.
História preenche lacunas e traz minúcias que enriquecem o universo de RE2.
Os passos pesados e abafados do Tirano tremem a base de qualquer um.
Pontos Negativos
Trechos de gameplay com Ada Wong e Sherry Birkin quebram o ritmo e não têm graça.
10
Excelente

Sobre o Autor

Bruno Araujo

Editor-chefe do GameSpot Brasil, main Pharah e escravo do Switch nessa tentativa louca de dar conta dos games na vida adulta moderna. Siga-o no Twitter em @brunocracia.

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Resident Evil 2

  • Data de Lançamento: 25 de janeiro, 2019
    • PC
    • PlayStation 4
    • Xbox One
    Desenvolvedora:
    Capcom
    Publisher:
    Capcom
    Gênero(s):
    Ação, Puzzle, Sobrevivência, Terceira-Pessoa, Terror, 3D
    Conteúdo Impactante, Sangue, Violência Extrema