REVIEW

Sekiro: Shadows Die Twice review — Darwinismo Soulsborne

  • Data de Lançamento: 22/03/2019
  • Data do Review: 21 de Março, 2019
  • PC, PlayStation 4, Xbox One

"Não sobrevive a espécie mais forte, mas a que se adapta à mudança".

por Pedro Scapin | @PedroScapin17 em 21 de Março, 2019

O darwinismo é uma teoria evolucionista em que o naturalista Charles Darwin defende a seleção natural como parte fundamental da adaptação e sobrevivência das espécies. E também é uma forma de definir Sekiro: Shadows Die Twice, que chega nesta sexta-feira (22) e representa o passo mais avançado da fórmula Soulsborne desenvolvida pela From Software.

Todos os elementos de Sekiro são um desenvolvimento direto de características de Demon’s Souls, Dark Souls ou Bloodborne. E funcionam quase como uma dimensão complemente nova, que vai além daquilo que esses outros jogos conseguiram entregar.

Pois não há dúvida. Tudo que os veteranos dos jogos Soulsborne aprenderam até hoje representa apenas uma semente do que vai florescer em Sekiro, o estágio final dessa evolução.

Dominar o uso de um escudo e uma arma salvava sua pele em Dark Souls. E saber a hora certa de esquivar encurtava o caminho para a vitória em Bloodborne. Mas Sekiro exige um mindset diferente que leva em conta três maneiras diferentes de se defender para superar seus inimigos mais poderosos.

Sekiro: Shadows Die Twice é o darwinismo do Soulsborne… e dos fãs do gênero também.

Evolução dimensional

O gênero Soulsborne sempre teve uma navegação semi-roteirizada, com caminhos específicos e eventos predeterminados limitando as formas de cruzar os cenários e se aproximar dos inimigos. Mas Sekiro conta com ferramentas que ampliam as dimensões em que o jogador pode atuar.

O gancho é a mais importante delas. Após perder parte de seu braço esquerdo no início da história, o protagonista O Lobo ganha uma prótese multifuncional que, acima de tudo, verticaliza a movimentação pelos mapas. E isso altera as formas com que o jogador explora os ambientes e encara seus adversários.

Os fãs de Dark Souls e Bloodborne estão acostumados com cenários repletos de segredos e easter eggs, além de pequenas porções de informação que podem ser encontradas e reunidas por aqueles que realmente tiram um tempo para explorar os mínimos detalhes de um local.

Com a nova mentalidade vertical de Sekiro, essa tarefa está mais complexa. Mas, assim como um chefão que te maltrata por muito tempo antes de te deixar aliviado com uma vitória, achar um item escondido e saber mais um pouquinho da lore do jogo é ainda mais recompensador.

Com a possibilidade de alcançar pontos mais altos dos cenários, O Lobo tem uma visão mais clara dos seus próximos passos e pode surpreender inimigos com golpes fatais, reduzindo em segurança o número de ameaças de uma área. Além disso, o gancho pode ser usado em combate. Contra um dos chefões do game, por exemplo, é possível usá-lo para encurtar a distância e golpear.

E essa nova verticalidade de Sekiro apresenta outra novidade para o gênero Soulsborne: o botão de pulo. Mais do que uma simples maneira de alcançar outros níveis dos cenários, o pulo é fundamental para sair vivo de alguns confrontos.

Golpes horizontais mais baixos nem sempre podem ser evitados com a esquiva introduzida em Bloodborne e exigem um salto para que sejam desviados com sucesso.

Outra ferramenta que pode (e deve) ser usada nos combates de Sekiro é o botão de agachar. O movimento permite abordagens mais cautelosas e uma nova oportunidade de pegar os inimigos desprevenidos, ampliando ainda mais o conceito de stealth do game.

Evolução física

Evoluir é refinar certos aspectos, mas também superar e deixar algumas características de lado. E em Sekiro, isso se traduz no fim da barra da vigor (ou estamina).

Por um lado, não existe mais a preocupação de “descansar” entre golpes e esquivas para continuar atacando e se defendendo. Por outro, a movimentação acaba sendo constante nos combates. E você vai perceber: se manter ativo nas batalhas costuma ser o caminho do sucesso.

Além dos inimigos serem mais agressivos em Sekiro, há ainda uma nova mecânica de postura tanto para O Lobo quanto para nossos adversários.

Sekiro

A postura é representada por uma barra que se preenche sempre que um ataque é aplicado ou desviado. A pegadinha aqui é que o medidor se esvazia gradativamente em caso de falta de combate. Portanto, ainda que não exista mais a preocupação de descansar para recuperar vigor, é preciso manter o adversário sempre pressionado, seja com golpes ou desvios precisos, os tais dos parries.

Falando em parry, esse movimento que sempre esteve presente nos jogos da From Software se transforma em Sekiro em muito mais que um luxo, mas uma verdadeira uma exigência para as principais batalhas.

Os adversários mais fortes do game são derrotados apenas com a aplicação de um certo número de golpes fatais, o que só pode ser feito quando a postura desse inimigo for quebrada. E ataques diretos causam menos dano em suas posturas do que um parry bem aplicado. Ou seja, é bom praticar e usar bastante a técnica.

Isso significa que as batalhas contra os chefões são ainda mais agonizantes. Não é incomum estar a uma ou duas espadadas de finalizar o inimigo e acabar levando um golpe semi-fatal graças à sua afobação. O que muda é o que acontece depois. Em Sekiro, você precisa colocar na balança se realmente vale a pena se afastar e recuperar sua vida – e, com isso, perder todo o progresso obtido até ali na postura do inimigo – ou se o caminho é apostar na habilidade (e um pouco na sorte) para matar o adversário.

E isso aconteceu comigo em diversas vezes. Mas uma em especial me fez viajar no tempo e no espaço, mais especificamente para o fim de 2015, na Torre do Relógio Astral.

O duelo contra Lady Butterfly trouxe lembranças sangrentas do confronto contra Lady Maria, de Bloodborne. A leveza, a graça, os movimentos que mais pareciam uma dança do que uma luta – e, é claro, os golpes velozes e precisos das duas chefonas. Foram alguns dos minutos mais significativos que vivenciei em Sekiro, e acredito que outros fãs de Soulsborne também encontrarão momentos assim na história do Lobo.

Pra ajudar nisso tudo, a última novidade dos combates de Sekiro pega carona em seu próprio nome. Shadows Die Twice é uma alusão ao sistema de ressurreição do game, que, mais do que propiciar uma segunda chance ao jogador em uma luta perdida, acrescenta uma nova camada de estratégia. Isso porque o ressurgimento também pode ser usado para colocar O Lobo de volta em modo stealth.

Sekiro

Mas é claro que a morte tem um preço em Sekiro. A cada vez que você perde sua vida e ressurge, o mundo é afetado. Não vou me aprofundar muito para não dar spoilers, mas morrer significa muito mais do que só ter de voltar ao checkpoint mais recente.

Evolução adversária

O darwinismo de Sekiro: Shadows Die Twice não é só do nosso lado. Os adversários também evoluíram e são mais inteligentes e ameaçadores do que seus parentes escrotos dos outros Soulsborne.

Pelo fato de Sekiro ter um protagonista com um estilo de combate pré-definido, e sem possibilidade de multiplayer, parece que os desenvolvedores tiveram mais liberdade na hora de criar desde inimigos comuns a chefões.

Isso significa que o desafio é bem maior aqui do que em Dark Souls ou até Bloodborne. Mais do que nunca, qualquer inimigo zé ruela possui uma chance enorme de ser o causador de sua morte. Os chefões então…

Ponto alto de qualquer Soulsborne, as batalhas contra os adversários mais poderosos de Sekiro são perigosíssimas. E até mesmo os sub-chefes são ameaças dignas, apesar dos confrontos contra os “peixes grandes” continuarem sendo os responsáveis por palmas suadas, batimento cardíaco acelerado e muito rage.

Mas também, em algum momento, mais cedo ou muito mais tarde, também geram aquela sensação de alívio e triunfo que só os jogos da From Software sabem trazer.

Gostaria de poder citar alguns dos confrontos mais espetaculares do endgame de Sekiro, mas, de um fã de Soulsborne para outro, prefiro que você os vivencie do jeitinho que a gente gosta: com surpresa, aflição, mortes, aquele momento onde finalmente se entende o chefão, mais mortes, e a sensação de dever cumprido com o derradeiro golpe fatal.

Evolução do “git gud”

Uma das expressões mais usadas na comunidade Soulsborne é “git gud”, algo na linha do “fique bom” – ou morra (muito) tentando. E em Sekiro: Shadows Die Twice essa frase também evolui e é mais verdadeira do que nunca.

Em Dark Souls e Bloodborne, a progressão do personagem acontecia por meio de almas/ecos de sangue, gastas para melhorar atributos como vitalidade, força e destreza. Em Sekiro, para deixar O Lobo mais poderoso, é absolutamente necessário derrotar os inimigos mais fortes do game.

Para ter mais HP e postura, por exemplo, é preciso reunir quatro contas de oração, algo similar à mecânica dos corações de The Legend of Zelda. Já o ataque do protagonista cresce com um item chamado Memória, deixado para trás pelos chefões do jogo após serem exterminados.

Resumindo: ou você “git gud” em Sekiro o suficiente para superar os desafios, ou dificilmente irá muito longe nessa jornada pelo Japão feudal.

Evolução influente

Uma das maiores preocupações da comunidade Soulsborne era o envolvimento da Activision em Sekiro. Porém, ao que parece, a publisher destilou sua influência em termos de acessibilidade.

Os jogos Soulsborne nunca seguraram a mão do jogador para apresentá-los às suas ferramentas e histórias. Coincidência ou não, com a chegada da Activision, isso mudou.

Sekiro é muito mais amigável a novatos e conta com tutoriais e cutscenes que contam mais da trama que cerca o game. Existe até um personagem imortal que te deixa praticar novos golpes e habilidades.

Outra novidade é a mecânica de bisbilhotar conversas dos inimigos. A invasão de privacidade entrega informações importantes do lore, chegando ao ponto de revelar pontos fracos de adversários que enfrentaremos posteriormente.

Veja bem, Sekiro ainda é um jogo muito difícil e desafiador, certamente o mais complexo a sair do escritório da From Software, mas, definitivamente, também é o que mais abre os braços a novos jogadores.

Falando diretamente com a comunidade Soulsborne, Sekiro é extraordinário e traz muitas evoluções dos conceitos criados pela mente de Hidetaka Miyazaki, certamente cavando um espaço para se tornar o jogo favorito de muitos dos fãs do estilo. Ainda gosto mais de Bloodborne por motivos de identificação maior com aquela história e sua ambientação, mas considero que a aventura do Lobo está a apenas um curto passo desse lugar especial em meu coração.

No fim, o darwinismo de Sekiro: Shadows Die Twice se reflete nos jogos Soulsborne como um todo, em seus veteranos, mas, acima de tudo, na própria From Software, que conseguiu entregar o melhor de todos os seus mundos criados. Um mundo que abraça os inexperientes, mas agrada, e muito, os velhos de guerra.

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Sekiro: Shadows Die Twice / PC, PlayStation 4, Xbox One

Pontos Positivos
Evolução total do conceito Soulsborne.
Combate mais complexo e desafiador.
Muita verticalidade nos cenários.
Mais amigável com novatos, mas sem tirar o nível de desafios.
Pontos Negativos
Visual um pouco abaixo de outros jogos do momento.
10
Excelente

Sobre o Autor

Pedro Scapin | @PedroScapin17

Desde sempre com um controle de videogame nas mãos, fã de Bloodborne e Dark Souls, viciado em FPS e jogos de esporte, e órfão de sua fita de Pokémon Crystal.

Twitter e Instagram: @PedroScapin17

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Sekiro: Shadows Die Twice

  • Data de Lançamento: 22 de março, 2019
    • PC
    • PlayStation 4
    • Xbox One
    Desenvolvedora:
    From Software
    Publisher:
    Activision
    Gênero(s):
    Ação, Aventura
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